quinta-feira, 8 de setembro de 2011

QUAL É O PROBLEMA COM ROTEIRISTAS DE HQS NO BRASIL?

Sem os artistas trabalhando, os nossos
roteiristas não tem como praticar e
assim, melhorar.
Um dos grandes mistérios entre leitores e profissionais de HQs é esse. Por que é assim por aqui? E... é só culpa da falta de roteiristas mesmo?
Vamos lá, vamos tentar responder.
:: TUDO É UMA QUESTÃO DE PORCENTAGEM...
Primeiro, vamos pegar uma questão técnica. Quem lê - qualquer coisa - aqui no Brasil? Quanto é a porcentagem da população leitora no Brasil? Olhe qualquer estatística do hábito de leitura no Brasil e verá que é uma porcentagem muito pequena, se comparado com o número total de brasileiros, com pouca variação. Agora imagine esse total de pessoas que gostam de ler. Pegue uma porcentagem ainda menor em cima deles representando aqueles que gostariam de se tornar roteiristas e/ou escritores de alguma forma. Em cima dessa galerinha, pegue uma porcentagem menor ainda representando aqueles que realmente vão atrás de um curso de roteiro ou curso literário. Desse novo e cada vez mais diminuto pessoal, pegue uma nova porcentagem representando aqueles que realmente levam a carreira a sério depois de um curso. Desses, pegue uma nova porcentagem - note que tá cada vez menor - que representa aqueles que querem fazer HQs (afinal, tem gente que quer fazer outras coisas, como cinema, TV, teatro, etc). Agora desse povo, pegue uma porcentagem menor ainda que consegue ser bom no que faz.
Sentiu o drama?
Desenhar todo mundo tenta ao menos uma vez. É legal, chama a atenção, todos os ilustradores trocam figurinhas sobre técnica x, y, z. Escrever? Pfff...
Agora tenha na sua cabeça a situação sinistra e bagunçada da editoração de HQs em nossa querida terra tupiniquim. E por que isso acontece? Falta de comunicação. Numa área que é de, pasmem, comunicação.
Falta de comunicação entre todas as variáveis da equação: roteiristas, desenhistas, editores, leitores... todo mundo. Como é mais fácil falar mal de alguém do que dia após dia fazer o possível para, a cada passo, mudar o mercado editorial, então falamos mal de Deus e o mundo. Nasce um milhão de trolls para cada gênio nesse meio. No final das contas, a culpa é de todo mundo.
E o que seria essa falta de comunicação?
:: O QUE A FALTA DE UM MODELO DE APRESENTAÇÃO DE PROJETO FAZ...
Tenho uma idéia de por onde começar. Que tal uma conversa franca entre todas as partes da equação citadas acima a fim de criar um padrão de apresentação de projetos? Nos EUA isso é primordial para que qualquer história - seja cinema, séries de TV, quadrinhos, o que for - seja aceita por um produtor/editor. Isso chama-se pitch.
Colocarei um exemplo de pitch na minha próxima postagem, caso queira ler. Aliás, é legal que leia, porque vendo suas características, você perceberia de maneira óbvia porque editores e quadrinistas precisam adotar esse sistema de avaliação de projetos.
Agora, perguntas aos editores:
Quantos de vocês receberam propostas através assim? Não reparem (sarcasmo mode on) no caráter retórico da pergunta (sarcasmo mode off).
E quantos de vocês gostariam de receber propostas de série assim?
(acho que não preciso ser sarcástico de novo)
Agora, pergunta aos quadrinhistas aspirantes:
Quantos de vocês fizeram um pitch perfeitinho e apresentaram aos editores? E sim, exatamente como explicarei no próximo post. O pitch deve ser rápido, sucinto e sem faltar nenhum dos itens citados ou burlado qualquer uma das regras mostradas. Sem “jeitinho brasileiro”, por favor. Só contará pontos contra você.
Pergunto de novo: quantos de vocês apresentaram um pitch nível profissional para os editores? Mais uma vez, sinto que a pergunta pode ser retórica.
O pitch funcionaria no Brasil? Quem pode dizer são os editores. Se não funcionar, por favor, editores, não seria a hora de sentar e criarem um padrão de apresentação de propostas e divulgar a Deus e o mundo para que os aspirantes a quadrinhistas comecem a ter mais profissionalismo?
Por que artistas e editores precisam agir assim...
:: INIMIGOS QUANDO DEVERIAM SER AMIGOS/ALIADOS...
E tem isso também: editor acha que quadrinhista brasileiro não é nem um pouco profissional. Quadrinhista brasileiro acha que editor é tudo um bando de gente gananciosa e elitista.
Não é por aí, gente. Enquanto - mais uma vez - uns acusarem outros, nunca sairemos do lugar. Que tal todos numa mesa, cada um ouvindo a outra parte e todos chegando a um consenso? Que tal os quadrinhistas sentarem com os editores e todos chegarem a um processo de como fazer? Panini, Conrad, Gal, JBC, New Pop, não importa. O que importa é que todos estejam no mesmo lugar, conversando. E diante dos quadrinhistas. Nada de leitores. Quadrinhistas. São os caras que produzem, certo? Então eles apenas. Como naqueles eventos onde fabricantes de brinquedos apresentam idéias apenas para empresários. Mostrem a estrada dos tijolos amarelos. Ajudem os quadrinhistas a apresentar seus projetos. E depois de ajudar, olha só, melhor pra vocês, que se os quadrinhistas não seguirem as normais, não terão do que reclamar. E quadrinhistas, se depois dos editores mostrarem claramente a vocês como é, não adianta reclamar deles também.
Ok, lance da falta de comunicação explicado. E o que vem agora? Vem a parte do estudo.
Como são os cursos de roteiro no Brasil?
:: PREPARAÇÃO TÉCNICA: AINDA DEFICIENTE NO BRASIL
A maior parte deles, em números esmagadores, foca em vídeo ou literatura. Ou é curso para cinema ou para escrever livros. Assim fica complicado.
Um curso voltado apenas para cinema ensinará o aluno a escrever apenas para cinema e como entrar apenas nessa indústria. Ser roteirista é mais do que lidar com apenas uma mídia. É uma necessidade conhecer técnicas de mais de uma mídia.
Se você é um cara que quer porque quer ser roteirista de teatro, tentar entrar só nesse meio de forma obsessiva é um erro monstruoso. Quando aparecer a oportunidade, faça um trabalho para TV. Não é o que quer? Não importa, faça. Apareceu oportunidade para escrever para videogames? Faça. Ainda não é o que quer? Apenas faça.
Roteirizar para outras mídias traz, entre outros benefícios, duas vantagens principais. A primeira é que você irá adquirir experiência. Você terá tempo de trabalho como roteirista, o que conta muito aos olhos dos editores. A segunda é que trabalhando para outras mídias, seu nome irá circular entre produtores e editores, fazendo aparecer convites para outros serviços até que, olha só, apareceu um para quadrinhos!
... quando poderiam agir assim?
Dessa maneira, quanto mais completo o curso, melhor.
Outro erro das pessoas em geral é pensar que roteiristas apenas... escrevem. Não, não é por aí. Quando você se torna um roteirista, você pode:
- Ser o roteirista principal, escrevendo filmes, séries, novelas, minisséries, desenhos animados, peças de teatro, livros, programas de auditório, histórias em quadrinhos, cursos de e-learning, videogames, entre diversas outras mídias.
- Ser roteirista de uma produtora de vídeos publicitários e/ou institucionais, seja em caráter fixo ou como freelancer. A maior parte dos roteiristas brasileiros estão nessa categoria.
- Auxiliar de roteirista: você é um roteirista novato e faz parte de uma equipe que tem outros roteirista que trabalham para um roteirista mais experiente e gabaritado. Novelas fazem muito uso disso.
- Ghost Writer: você trabalha para algum roteirista de forma semelhante à descrita acima, mas sem equipe. Você o ajuda naquilo que ele está escrevendo no momento e boa parte do que entra na história a autoria é sua, mas você nunca receberá os créditos. Ou alguém que não sabe escrever e só tem “idéias legais” contrata você para colocá-las em ordem, tornar as tais idéias um roteiro. Mas mais uma vez os créditos são dessa pessoa. Os roteiristas profissionais são divididos quanto à essa prática por uma série de questões morais e profissionais.
- Parecer e análise: análise crítica de um roteiro. Uma produtora de cinema e/ou vídeo contrata você para ler um roteiro escrito por outro roteirista para que você o analise, retornando com suas opiniões, escrevendo um documento dizendo o que está bom e o que está ruim e precisa ser mexido. Ás vezes para nisso e às vezes você também pega o roteiro que tem defeitos e/ou está mal escrito e escreve um documento dando sugestões de como melhorá-lo. Tudo depende do acordo que fizer com seu cliente.
- Reescritura: você simplesmente reescreve um roteiro de outra pessoa do zero, mantendo as linhas básicas de história.
- Revisão técnica: o roteirista irá procurar e consertar formatação e termos de roteiro que estejam errados de acordo com o padrão de cinema e TV.
Isso tudo, entre vários outros serviços que roteiristas profissionais prestam. Tem gente pra todo esse serviço? Tem. Então temos roteiristas? Temos. O problema é que a maioria não quer fazer quadrinhos. Não dá dinheiro. Ou não tem interesse, pois não é fã, não é leitor, não gosta.
O que nos faz voltar para aquela porcentagem mirrada do começo que quer ser roteirista de quadrinhos.
Caras como esse aí de cima poderiam publicar projetos aqui se não fosse o medo das editoras. E com ele, roteiristas apareceriam. Mas ao invés disso...
:: VOCÊ JÁ É ROTEIRISTA E QUER FAZER QUADRINHOS
Agora, vamos dizer que você fez cursos. Começou a trabalhar em outras mídias, mas você quer fazer HQs. Chega um momento que você se sente experiente e começa a bolar uma série. Faz parceria com artistas para cobrir desenhos, arte-final, etc. Montam o pitch do jeitinho explicado no próximo post. E não dá certo. O que houve?
De duas, uma.
1 - Ou você escreveu um texto ruim e/ou os desenhos é que estão ruins.
... as ideias acabam parando aí em cima...
2 - Ou você estragou tudo na conversa com o editor.
Reveja o texto. Não tem nada de errado? Está bem escrito gramaticalmente? Está comercial? Tem profundidade? Os desenhos estão excelentes? Então é a segunda opção.
E como rola o contato com o editor? O pitch foi entregue, o editor curtiu e te chamou para uma reunião. Beleza. Como fazer pra não cometer o item dois lá de cima?
Primeiro, transmita segurança. Se você não tem confiança nem certeza na história que tem, como quer que o editor confie em você?
Quando o editor lhe fizer perguntas, tenha respostas curtas. Se consegue sintetizar os detalhes de sua história, o editor sabe que você pode colocar bastante informação em uma página utilizando o mínimo de texto.
Outra: agir com naturalidade é um dos grandes segredos. Não pareça um vendedor. Ok, o que está fazendo é mesmo vender seu peixe, mas não fique parecendo um daqueles caras que batem de porta em porta vendendo enciclopédias.
Duas coisas principais são foco no que o editor quer. E o que ele quer? Tirar quaisquer dúvidas sobre seu projeto, ou seja, conseguir mais informações e, o relacionamento profissional. Como assim, “relacionamento profissional”. Ele quer te conhecer, simples assim. Quer saber se você é um mala ou seja é alguém fácil para trabalhar junto. A maior parte das informações do projeto ele já tem e o que não tem, pergunta na hora. Desse modo, o mais importante é você. Se você é mala, você pode ter o novo Watchmen, ele não vai pegar.
Outro detalhe importante é que cada pessoa tem um jeito, então seja flexível. Não empurre o conteúdo do seu pitch goela abaixo. Não precisa contar seguindo uma “linha temporal” como nos livros de História. Vá adaptando o conteúdo do seu pitch conforme a conversa com o editor se desenrola.
... ao invés de dar a chance de bons roteiristas surgirem...
Geralmente os novatos não imaginam, mas o pitch é um processo seletivo. A idéia é legal, mas tem muitos erros gramaticais e/ou de digitação? Reprovado. O texto está perfeito, mas a idéia é bem fraca? Reprovado. Se os dois estiverem bons, uma reunião é marcada.
O pitch tá perfeito, mas você é um mala? Reprovado. O pitch tá perfeito, você é bacana, mas não se ajeita com a política editorial do cara? Reprovado.
Mais uma vez, um bom curso ensinará tudo isso e muito mais. Fora que, como salientei, é preciso ter um tiquinho de experiência em outras mídias para antes pular para mais uma.
Vê que é preciso muito mais do que apenas pensar “Eu quero fazer uma HQ”? Tem noção da porcentagem de chance de termos roteiristas de HQs baseado no hábito de leitura brasileiro? Não adianta o “quero porque quero” e, sem estudar, querendo pular etapas, sair escrevendo. Nesse ramo não funciona assim.
:: FAÇAM AS PAZES, EDITORES E QUADRINHISTAS, PELO AMOR DO SANTO STAN LEE
Você criou uma série bacana. O pitch tá legal. A reunião foi supimpa. Você irá publicar. Mas aí, depois de acabar esse trabalho, começa tudo de novo. E ter publicado uma vez não é garantia de conseguir algo mais facilmente. Por que?
Caímos mais uma vez - criando um maldito círculo vicioso - no lance de que editorialmente, aqui é tudo uma bagunça. Um mercado bom, nos moldes como o do americano, do japonês ou do europeu, não nascerá apenas com o surgimento de uma HQ revolucionária, daquelas que jamais vimos antes. Será apenas uma andorinha.
Além da tal HQ revolucionária, volto na questão da comunicação. Editores e quadrinhistas tem que ser amigos. Todos só tem a ganhar.
Tem que haver uma padronização e uma comunicação forte sobre como publicar, como apresentar projetos. Já pensou como seriam os TCCs se não houvesse todo aquele manual de redação exigido pelas faculdades? Não temos uma ABNT dos quadrinhos ou algo assim. Enquanto cada elemento da equação não se mexer - e é preciso que todos se mexam, não só alguns - não irá melhorar para ninguém. O mercado continuará o mesmo.
É preciso que o mercado seja visto e encarado de forma profissional por todas as partes. Se as partes não agirem profissionalmente e através de alianças, o mercado não surge.
:: EU POSSO SER UM ROTEIRISTA?
Alguns podem achar besteira, tem todo o direito de discordar do que eu vou falar agora. Porém, escrever é como o vinho, melhora com o tempo. Então eu acredito que quanto antes você começar a praticar, melhor.
Você tem 14, 15 anos e quer ser roteirista? Aproveite.
Sim, aproveite. Você é novo. Faça cursos. Monte peças na escola para testar suas teorias e aprendizado. Entre em contato com companhias locais de teatro amador e se apresente, mostre algo que escreveu. Encene alguma coisa. Ou escreva contos e poste na internet. Vá lapidando o que aprendeu nos cursos. Dominou? Então escreva um livro. Ou dois. Ou três. Participe de fanzines para praticar. Vá em universidades que tenham curso de Cinema, Publicidade, Rádio e TV e se apresente aos alunos. Eles precisam fazer vários trabalhos para o curso e nem todo mundo num curso desse tem jeito para a escrita. Faça algo com eles, diga que escreve alguma coisa para que eles ponham em prática o que estão aprendendo sobre direção e outros segredos das filmagens. Mesmo que nada vire, nada seja publicado ou produzido, você está praticando. Escrever é como vinho, melhora com o tempo. Chegará um momento, conforme os anos passarem, que você já terá prática suficiente e terá dominado todas as técnicas de roteiro. E com experiência, fica mais fácil um editor olhar para você.
Você tem 27, 28 anos e quer ser roteirista? É, nunca é tarde pra começar, mas é melhor correr.
Após fazer cursos e ouça atentamente o que seu professor tem a dizer sobre como conseguir uma sombrinha ao sol. Alguns dos itens descritos acima para os mais novos não estão descartados, mas como você não tem tanto tempo quanto alguém de 14, 15 anos, veja que estratégia pode traçar para fazer alguma coisa e ainda assim casar perfeitamente com sua agenda atual. Tenha metas. Vá em eventos de cinema, eventos literários, se apresente, dê as caras a bater.
Vamos dizer agora que não importa sua idade. Você fez tudo que tinha que fazer para praticar, pegar experiência, ter seu nome rodando no mercado de alguma maneira e afins. E tudo o que quis fazer é escrever HQs. Você esbarrará num problema logístico. A inexistência do mercado.
(que enquanto, como disse, não houver um padrão e todos não se ajudaram, não irá surgir)
Como fazer?
Aspirantes a desenhistas, arte-finalistas e coloristas também lutam contra o tempo. Quando são novinhos, moram com os pais, tem toda a possibilidade de tentar projetos que podem não dar em nada. Eles não pagam contas ou só ajudam com uma ou outra despesa básica, se tanto; entre outras mordomias da juventude. O ruim da juventude é que a chance de ter alguém pronto para publicar - artisticamente falando - é quase nula. Geralmente um aspirante a quadrinhista está estudando desenho, sua técnica ainda está longe de ser apurada, tem muito chão pela frente.
Porém, conforme vão ficando mais velhos, começam a trabalhar e a dura rotina da combinação horário comercial + horas extras mata quase qualquer chance de um sujeito desenhar páginas assim que chegar em casa.
E conforme vão ficando mais velhos, a vida precisa ser feita. Uma namorada já quer ser noiva, que dali um tempo vira esposa e daqui a pouco surge um filho - se você já não fez antes uma criança, colocando o carro na frente dos bois, só piorando sua situação. É, fica difícil continuar tentando essa carreira.
Em ambos os casos, o que fará a diferença - uma diferença maior ainda no caso de aspirantes já velhos - é a determinação. Pura e simples determinação.
Os artistas querem isso? Os roteiristas também!
:: OS ROTEIRISTAS TAMBÉM QUEREM DINHEIRO, ARTISTAS!
Quando tem um roteirista que quer fazer algo tenta juntar uma equipe de arte, o que mais escuta é: “Vão pagar por página? Quanto?” e variantes - como se o roteirista fosse uma editora. Deixa eu contar um segredinho pros artistas: roteiristas também querem dinheiro.
Pagar por página? Filho, isso no Brasil quase não existe. Quando rola, é pouco em comparação ao mercado americano. Mesmo sendo pouco, levante as mãos para o céu, pois você é um afortunado.
Aproveitando, esqueça esse molde do mercado americano. Aqui funciona com royalties e outros acordos oferecidos pelas editoras. Quer receber nos moldes do mercado americano? Então se mexa. De graça. É isso, mesmo, de graça. É legal? Não. É justo? Também não.
Voltando, quando um roteirista que quer fazer algo tenta juntar uma equipe de arte e explica como as editoras aqui fazem, escuta algo assim (e suas variantes): “De graça? Nem ferrando! Não trabalho de graça. E tenho conta pra pagar”.
Antes de mais nada, só ele tem conta pra pagar, né? Do roteirista ao letrista, todos tem contas para pagar. Caia na real: estão todos no mesmo barco. Roteirista, arte-finalista e colorista trabalharão tão de graça quanto você. E se você é um arte-finalista, o mesmo serve pra você, que serve também para você, coloritsta. Enquanto todos - sem excessão - não se mexerem, não haverá uma HQ feita e sem HQ feita não haverá apresentação para o editor e sem apresentação para o editora, vocês não publicarão nunca.
Porém, sem parceria entre roteiristas e
artistas...
Quer fazer parte de uma equipe de arte no Brasil? É roteirista? Escreva de graça. É desenhista? Desenhe de graça. É arte-finalista? Finalize de graça. É colorista? Pinte de graça. E nem é tanto, cinco (05) páginas para o pitch já bastam. Não precisa fazer a história inteira. Só precisam juntar forças e montar um pitch. Cada um na sua especialidade.
Montou o pitch? Apresentou? Teve reunião com editor e ele bateu o martelo? Supimpa! Agora sim é a hora de falar de acordos, valores, contrato. Agora você terá o retorno do seu trabalho.
Ah, os valores ainda não agradam? Continue fazendo. Digamos que uma equipe criativa começa a fazer alguns trabalhos juntos. Um atrás do outro e vocês são dedicados, estudiosos, esforçados... mesmo que não vejam a cor do tutu. Um prêmio aqui, dois ali, os leitores apenas elogiam vocês, uma das HQs consegue ser publicada nos EUA... a coisa ta engrenando. Vai chegar uma hora que vocês terão todo o direito de pedir pagamento por página, pois sabem que seu trabalho vende muito bem e, portanto, está gerando lucros para a editora. Se uma editora tem apenas uma equipe criativa nesse nível, fica complicado apenas ela bancar o resto da editora. Agora, se a editora tem umas seis ou sete equipes assim, então dinheiro ta entrando e aí fica mais fácil pedir pagamento por página.
Os artistas tem que parar com a mania de achar que aqui funciona como o mercado americano de quadrinhos. Quadrinhos no Brasil funciona como no mercado fonográfico. O músico (ou banda) passa meses compondo letras e música. Nesses meses, tem que pagar as contas de alguma outra forma, sendo garçom, balconista, policial, faxineiro, não importa. Depois que tiver tudo fechadinho e anotado, vão para o estúdio, gastando uma boa grana com a locação e serviços do lugar para que as músicas fiquem redondinhas. Só nisso vão mais alguns meses. Agora o músico tem a despesa de se manter e ainda a despesa com o estúdio. Depois vem a gravação, distribuição e publicidade do álbum, que já vai mais grana e massa cinzenta (porque afinal, agora terá que haver alguma estratégia para que até o Papa conheça suas músicas). Oba, temos um CD pronto. Na era do mp3.
Ou seja, o músico não terá o (provável) merecido retorno com a venda de seus CDs. Nem os artistas mais famosos tem esse retorno. O retorno vem com os shows. O lucro do CD vai praticamente para as gravadoras, se você tiver o suporte de uma.
Então ele tem todo esse trabalho por meses só para ter o retorno bem depois? É, cara-pálida isso mesmo. E a indústria foi assim durante décadas até que o mp3 deu as caras e causou a revolução que continua causando. E essa indústria funcionou durante todas essas décadas, não funcionou? Artistas vendiam discos e depois CDs aos milhões, não era?
E porque você, artista de quadrinhos aspirante, todo gostosão, não pode trabalhar “de graça”? Não responda, por favor. Veja que você não estará trabalhando “de graça”. Você está criando um produto e para ter retorno com ele, o produto precisa estar pronto. O pitch é a apresentação desse produto. E um pitch não surge “do nada”. Roteirista tem que trabalhar, assim como desenhista e todos os outros.
... um mercado forte nunca irá surgir.
Só deixando de lado essa visão egoísta de “trabalhar de graça” e, efetivamente colocando a mão na massa é que cada vez mais projetos surgirão, aumentando as chances de mais trabalhos serem publicados e, com mais trabalhos sendo publicados, o mercado vai se fortalecendo até que possa surgir algo nos moldes do tão sonhado mercado americano. Em outras palavras, até que as equipes criativas façam os editores abrirem as pernas. E editores, sei que é isso que querem, afinal, estariam ganhando uma boa grana.
Agora, se alguém aí acha que algo assim surgirá do nada, através de apenas uma série ou com o trabalho de uma equipe criativa apenas, é melhor acordar, meu caro Nemo.
Só a união de roteiristas, artistas e editores fará com que nossos roteristas possam praticar e assim melhorarem. Só a união fará um mercado forte surgir. Só a união fará com que as HQs vendam a ponto de criadores ganharem por página. Durante quanto tempo os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá fizeram quadrinhos sem ganhar nada? Eles foram fazendo uma atrás da outra, praticando, melhorando, mostrando ao mundo o trabalho deles. Eles passaram anos plantando. Até que colheram. "Só" estão ganhando Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos, um atrás do outro.
E por favor, pare de reclamar. O tempo gasto reclamando, seja ao vivo ou na internet, você poderia estar escrevendo. Ou desenhando. Ou arte-finalizando. Ou colorindo.

HQ: CRÍTICA DE ACTION COMICS #1


Já digitei e redigitei frases para começar essa crítica e isso me faz confessar que não sei por onde começar. O fato é que não fui completamente fisgado pela história de Action Comics #1, com roteiro de Grant Morrison e desenhos de Rags Morales.

A apresentação mostra de cara um Superman mais próximo do original, ou seja, aquele cara que era bruto e que tinha como alvo qualquer coisa errada e não só ameaças alienígenas ou déspotas cósmicos. Ele age contra qualquer injustiça social e de modo curto e grosso. Ele escolhe de cara o homem mais poderoso de Metropolis para dar o seu recado à cidade - e não é quem você está pensando - o de que se as pessoas não forem tratadas dignamente, ele fará uma visita a quem não fizer isso.

Essa maneira mais direta e explosiva de Superman agir fica interessante pra mim a partir do momento que eu penso "como seria a adaptação do Superman original para os dias de hoje?". Tirando isso, não consigo ver como pode competir com o paladino, cuja imagem foi praticamente criada com o personagem interpretado por Christopher Reeve nos cinemas e que foi reforçada por John Byrne nos anos 80. E antes que algum advogado de cronologia venha me criticar, lembre que o Superman antes da Crise nas Infinitas Terras era uma colcha de retalhos, afinal, é só lembrar das capas absurdas estreladas pelo personagem onde ele faz pouco de Lois, Jimmy e qualquer outro que estivesse ao seu redor; então não, nem sempre ele foi o grande cavaleiro em cima de um cavalo branco.

E a imagem de esperança perpretado por Reeve e Byrne e tão perfeita e forte que me faz ter dúvidas quanto ao "Superman clássico retrabalhado nos dias de hoje". Nas mãos de Grant Morrison? Ok, vou dar o crédito. E aí fica a torcida para ninguém mais botar a mão na revista enquanto ele não contar o lance de "mostrar como ele saiu do garoto caipira e virou o herói com a armadura ridícula e desnecessária". Aposto o toba (brincadeira!) de que esse Superman caipira será mais interessante do que o enlatado.

Em seguida, quando a polícia de Metropolis tenta prender o kryptoniano, somos apresentados a alguns detalhes de como ele é visto pela humanidade, como por exemplo, uma citação sobre a visão de um certo jornal metropolitano sobre ele. Morrison tenta colocar as pistas e desenvolvimento maior no meio da ação. Isso é legal, mas se feito em três, quatro, cinco edições seguidas, sem tempo de respiro para o leitor, cansa. E fico preocupado com esse detalhe porque Justice League #1 é ação (mal feita) desenfreada e aqui acontece o mesmo. Se a tendência é ter ação o tempo todo como modo de capturar a atenção da molecada, fico com o pé atrás com esse novo universo DC. Precisa haver cadência, precisa do "efeito montanha russa" onde temos momentos de tensão e momentos mais relaxantes, que são geralmente aqueles em que o leitor pega o verdadeiro desenvolvimento de histórias e personagens. Claro, ação e desenvolvimento de histórias combinam e deve ser feito, mas é uma arte dominada por poucos roteiristas e quando temos 52 revistas na linha e não temos nem um terço disso de "Grant Morissons", fica difícil aceitar.

Logo depois, vemos que o general Sam Lane trabalha em conjunto com o cientista Lex Luthor - este, no caráter de consultor - e que ambos estão tentando capturar Superman. Não vi a vilania de Luthor nessa edição. Vi alguém que tem um argumento sólido para fazer o que está fazendo - a explicação dos animais fora de seu habitat - e nada mais do que isso. Ok, ele é genial a ponto de fazer seu plano dar certo - no final da edição - mas é isso. Embora ele tenha um bom peso nesta edição, a estrela ainda é o Superman e mesmo ele ainda fico ressabiado.

Luthor consegue levar Superman até construções marcadas para demolição que são usadas como abrigo por pobres. O fato de demolirem o lugar com gente ainda dentro acho inverossímel demais. Nenhuma prefeitura permitira isso. Luthor tem tanto pode assim para usar um cenário desse sem as consequências que uma investigação jornalística pode trazer? Não parece, já que Sam Lane o ameaça de acabar a prestação de serviços se resultados não vierem logo. Luthor quis atrair a atenção do herói, obrigando-o a ficar em algum lugar para assim os tanques do exército tentarem pará-lo. Luthor sabe que não irão, então parece mais que o vilão está estudando-o do que qualquer outra coisa, vide o recurso diferente usado por um dos tanques, o que não é surpresa se vermos a sigla usada para o modelo do tanque.

Essa sequencia serve também para mostrar a real extensão dos poderes do homem de aço em seu início e também que nem todas as pessoas são contra ele.

Ao escapar dos tanques - bem machucado, diga-se de passagem, conhecemos Clark Kent, o jovem adulto que paga aluguel - e está atrasado! - de um apartamento não muito convidativo. Não pude deixar de ver Peter Parker ao invés de Clark Kent ali, o que ficou meio estranho pra mim. Não ruim, mas estranho.

Clark tem um visual desleixado, o que pode servir no lugar de Clark se fingir de atrapalhado - clássica abordagem - pois um imponente e todo poderoso super-herói não poderia ser assim na visão das pessoas comuns, principalmente de um certo careca. A única coisa que me incomoda é que na maioria das vezes ele parece uma versão crescida de Harry Potter, só faltando o raio na testa. Paranóia minha ou não, a sensação piora quando vemos Jimmy Olsen, que poderia ser muito bem um dos irmãos Weasley, o que pra mim reforça a ideia de que estão usando características subliminares para atrair a molecada.

Falando em Jimmy, o conhecemos junto com Lois Lane, filha do general Sam Lane. Os dois trabalham para o Planeta Diário, como de costume, mas Clark não. Ao colocar o alienígena de Smallville em um jornal rival, a tensão e competitividade entre os dois foi alçada a outro patamar. Isso é um recurso interessante, que permite mais conflitos entre os três personagens.

Ainda assim, não senti ainda um grande desenvolvimento com Jimmy e Lois, o que me decepcionou um pouco.

Eles dão de cara com um grande bandido no metrô de Metropolis e é uma ótima oportunidade para uma matéria, se o veículo não estivesse envolvido no plano de Luthor. Os desdobramentos dessa sequência de ação e o que Luthor faz com Superman são fantásticos, fechando a edição de forma muito bem criativa e bem feita.

Creio que ficou claro que há mais qualidades do que defeitos na história criada por Morrison e Morales, mas ela não tem cara de edição de estréia. Não tem cara de ser um início. Parece algo solto em algum lugar.

E não me venha com aquela de "ah, mas pra que ver Krypton explodindo, o foguete saindo do planeta, o foguete caindo na Terra e blá, blá, blá...". Pegue a primeira edição de "Superman - O Legado das Estrelas" e você verá uma mais do que perfeita edição de estréia sem precisar recorrer a essa sequencia cronologicamente linear. Ainda acho esse primeiro capítulo e o de John Byrne os melhores recomeços do homem de aço.

Consequentemente, se Action Comics #1 tem a missão de fazer a garotada comprar quadrinhos, não sei se a missão foi totalmente cumprida. Que faz antigos leitores voltarem a comprar, sem dúvida, mas a criança que vai aproveitar o relaunch para começar a comprar e consequentemente virar um leitor assíduo, tenho cá minhas dúvidas.

Pra mim, leitor que nunca deixou de comprar, me faz esperar mais duas ou três edições para saber do que esse "novo" Superman é feito. Action Comics #1 ainda não é o bastante pra mim.

Action Comics #1
DC Comics - Setembro de 2011
Roteiro de Grant Morrison
Desenhos de Rags Morales
Arte-final de Rick Bryant
Cores de Brad Anderson

Nota: 7,5

terça-feira, 6 de setembro de 2011

CRISE DE CRIATIVIDADE NOS QUADRINHOS



Pelo visto, a roda precisa ser reinventada...

:: UMA RARA DECLARAÇÃO HONESTA
"Relaunch". "Reboot". Talvez essas tenham sido as duas palavras mais faladas/escritas no mercado de quadrinhos nos últimos meses.

O que me fez escrever este texto foi essa declaração:

“THE TRUTH IS PEOPLE ARE LEAVING ANYWAY, THEY’RE JUST DOING IT QUIETLY, AND WE HAVE BEEN PAPERING IT OVER WITH INCREASED PRICES...WE DIDN’T WANT TO WAKE UP ONE DAY AND FIND WE HAD A BUNCH OF $20 BOOKS THAT 10,000 PEOPLE ARE BUYING.”
- Dan Didio.

O que o presidente da DC Comics disse foi: "A verdade é que as pessoas estão deixando de ler quadrinhos, deixando de ler aos poucos e tudo que temos feito é aumentar os preços das revistas... só que não queremos acordar um dia com quadrinhos custando vinte dólares que dez mil pessoas estão comprando".

Claro que as pessoas não estão lendo mais. Não há nada de novo nos quadrinhos há tantos anos que não sei mensurar. Não adianta novas séries, personagens diferentes se os mesmos truques criativos continuam a ser usados.

Olha, ele morreu...
:: ISTO É O QUE ACREDITO QUE ESTÁ ACONTECENDO
Pode me chamar de inocente, mas acredito que a queda nas vendas de quadrinhos tem menos a ver com preços, estratégias de marketing, distribuição e afins. Claro, cada um desses aspectos influencia, teu seu grau de poder destrutivo nas vendas. Porém, acredito que há algo muito, muito pior e que é sim o principal responsável pela queda de vendas.

Brincando com algumas sagas da DC e usando de um velho termo, o problema é crise de criatividade.

Em outras palavras, os recursos, truques e macetes usados nas histórias são os mesmos há 234634572342 anos. Não há inovação alguma. Os personagens continuam os mesmos e isso é a morte para uma história ficcional. Uma das coisas que é parte da base de técnicas de roteiro é o fato de que personagem precisam mudar. Ao final de uma história, eles precisam aprender algo, mudar de opinião sobre alguma coisa, desenvolver conhecimento/habilidades novas, ter o curso de sua vida alterado por algo dramático. Isso é básico para cinema, TV, literatura, o que você quiser. Não é o caso, infelizmente, dos quadrinhos de super-heróis. Vamos ver por que e quais são alguns desses truques são esses? Acredito que nos comentários, muitos leitores vão dizer o que criativamente não aguentam mais. Creio que seria quase uma utilidade pública, não é?

:: MORTE
Um herói morre. E depois revive. Outro herói morre. Também revive. Mais um herói morre e o que ele faz? Volta do além. Aí morre mais um e adivinha o que os roteiristas fazem? Você entendeu.

O recurso da ressurreição banalizou a morte nos quadrinhos. Ninguém mais se importa. Não alavanca vendas como antes. Perdeu o significado. O recurso foi usado e abusado até um nível obsceno (senão mais) e hoje os leitores riem quando um herói morre, isso quando tem alguma reação a esse acontecimento.

... mas voltou! A morte foi banalizada
nos quadrinhos. Ninguém mais acredita.
Morreu? Morreu. Simples assim. A editora se arrependeu de ter matado o herói? Que outro personagem diferente continue o legado. É por isso que o Fantasma é o melhor personagem já criado em todos os tempos. O novo Fantasma não deu certo? Mata, inutiliza ele, sei lá, mas tire ele de lá e coloque um novo na linhagem. Dê a eles um tratamento estilo Batman Beyond ou Peter Parker/Miles Morales. Um novo cujas características foram criadas após cuidadoso estudo sobre o gosto do público atual. Quem você matou foi Peter Parker, não o Homem-Aranha. Quem você matou foi Diana, não a Mulher-Maravilha. O conceito continua vivo. E com uma nova persona no lugar, pode ser atualizado e remodelado para que continue fresco, atual, novo. Enfim, que desperte a curiosidade das pessoas. Encerre a era de Tony Stark e coloque alguém novo que dê um ar fresco ao Homem-de-Ferro. Um personagem esgotou suas possibilidades? Renove-o assim e não através de retcons e reboots. Recontar a origem pela milionésima vez para colocar "elementos novos" não funciona mais.

Com um personagem novo continuando o legado de um anterior, você marca uma fase. Olha, temos a fase de Bruce Banner como Hulk. Agora é a fase do quem-quer-que-seja como Hulk. Mas o que Banner fez antes tem grande impacto na vida desse quem-quer-que-seja. O legado, o conceito vive. A história move adiante.

E isso me leva a outro tópico...

Pra que fazer isso...
:: RETCONS
Por tudo quanto é mais sagrado, o que aconteceu com Gwen Stacy permanece com Gwen Stacy. Já foi, é passado. Faça com que Peter supere de alguma forma em alguma história épica, que seja. Mas supere. Não quero vê-lo como o chorão supremo. Quero vê-lo como um herói, que supera as dificuldades com dignidade, seja elas quais forem.

Mova a história do personagem adiante, não utilize retcons. Conte coisas novas. Traga novos conceitos, novas abordagens a cada história. Faça os personagens aprenderem coisas novas. Mas aprendam e não esqueçam. Digo isso porque não consigo me lembrar da última vez que alguém usou a noção de geometria espacial que Ciclope possui e que o fazia usar seus raios óticos de forma ofensivamente impressionante.

Outro problema com retcons é que a cronologia do personagem vira uma colcha de retalhos. Isso só causa mais problemas conforme o tempo passa. É como ter 50 ovos em uma cesta que só cabe 15 e você está lá, colocando mais 70 na cesta.

O retcon também vai contra uma regra suprema dos roteiristas, a regra do K.I.S.S. - "keep it simple, stupid". Mas não, lá vai mais um retcon para acrescentar mais problemas cronológicos que outros terão que ficar arrumando depois quando deveriam contar apenas uma boa história.

... quando a última memória dos leitores com ela
poderia ser a de uma história grandiosa?
:: MEGASAGAS
Vou fazer um pedido - e imagino que muitos irão me apoiar entre as pessoas que colocarem seus olhos neste texto - por favor, banimento (quase) total das megasagas. Acaba uma megasaga, já tem outra na sequencia. E cada um dos títulos passando por uma megasaga. Tem megasaga do Batman, Homem-Aranha, Lanterna Verde, Vingadores e blá, blá, blá.

Quando várias acontecem ao mesmo tempo e uma atrás da outra, como ela pode ser grande? Como pode ser especial? Como pode ser relevante?

Nas revistas, contem histórias. Apenas histórias. Façam seus arcos de história. Contem uma história com quatro edições. Na sequência, contem outra com três. Contem outra com cinco. Só não contem com muitas partes. Um arco com muitas edições prende muito o leitor. Economicamente vantajoso mantê-lo preso por quase um ano ou mais? Desculpe, isso já não cola com os leitores.

Contem apenas uma história atrás da outra. Simples assim. Depois de uns três ou quatro anos, faça uma megasaga com aquele personagem.E outra só dali a mais alguns anos. Deixe os leitores aguardando sedentamente por isso.

E isso também me leva a outro tópico...

:: CROSSOVERS
Parem com isso. Hoje, todos os personagens estão aparecendo em todas as revistas. Pra que comprar Mulher-Maravilha se ela aparece também na revista da Liga da Justiça, Novos Titãs, em mais duas ou três revistas e ainda na megasaga do momento? Qual foi a última vez em que algum personagem teve uma fase em que as histórias giravam apenas em torno dele e de seus respectivos coadjuvantes, adicionando camadas a eles? Desenvolvendo-os? Tornando-os melhores?

Crossovers e megassagas: precisa mesmo toda hora?
Com crossovers sendo raros, os fãs esperarão ansiosamente quando eles se cruzarem. Se isso ocorrer, que ocorra por necessidade criativa e não como muleta para qualquer outra coisa.

Se um personagem menor fica popular, não dê a ele uma revista mensal. Faça justamente o contrário. Faça-o aparecer esporadicamente. Os leitores pedirão mais, comprarão mais quando ele aparecer. Agora, se todos adquiriram uma "síndrome de Wolverine", como quer que os leitores peçam mais? Um crossover deveria ser um "putaquepariu, eu quero muito ver esses dois juntos" vindo dos leitores.

Agora imaginem as megasagas onde são elas junto com crossovers. É de doer, fala sério. Quer fazer uma megasaga? Faça com uma linha de personagens. Não faça com o elenco inteiro da editora. Espere um evento realmente épico para fazer uma megasaga+crossover.

:: REALIDADES ALTERNATIVAS
Aqui, eu acho que é o cúmulo do retcon+megasaga. Há realidades alternativas bacanas? Há, mas são uma minoria asmática perto das histórias ruins feitas com essa ideia. Uma realidade alternativa tem que ser relevante de alguma forma para o personagem e não algo como um "retcon do futuro". No passado ou no futuro, o conceito de retcon falado anteriormente continua o mesmo.

À força, os americanos entraram nos portos japoneses...
As realidades alternativas também acabam com o esquema de "contar uma história após a outra" falado no tópico das megasagas.

:: OUTROS TRUQUES BATIDOS
Como disse anteriormente, esses aqui seriam apenas alguns truques que os leitores não aguentam mais e com certeza eles tem sua "lista de truques batidos". Se eu colocasse aqui todos os truques batidos da minha lista, viraria uma tese acadêmica, um livro.

Baseado no que foi descrito aqui, faço um convite a Geoff Johns, Brian Michael Bendis, Mark Millar, Scott Snyder, Kurt Busiek, Peter David e cada um dos roteiristas do mercado americano: revisem seus truques. Criem novos truques. Criem novas formas de contar histórias. Criem novas saídas, novas estratégias. Não adianta um relaunch ou um reboot se cometem os mesmos erros.

Décadas atrás, a DC liderava o mercado de quadrinhos. Seus heróis eram deuses, figuras mitológicas acima dos mundanos humanos normais e suas peripécias e aventuras encantavam e impressionavem os leitores. Aí surgiu a Marvel, com uma nova e fantástica abordagem: trazer para perto do leitor os super-heróis. Agora os leitores sentiam que eles poderiam ser super-heróis ao conhecer Peter Parker, Donald Blake, Matt Murdock e outros.

... mas não querem nenhum estrangeiro na área deles. Pode não
ser lá, mas em outros países isso se chama "hipocrisia".
E o mundo dos quadrinhos nunca mais foi o mesmo devido a esse novo conceito.

Acredito então que o mercado de quadrinhos atualmente precise de outro evento de igual importância como foi o surgimento da Marvel na década de 60. E acredito que isso só ocorrerá se novamente tivermos novos conceitos. Roteiristas, procurem entender o mundo atual. O mundo mudou muito, desnecessário dizer isso. Mas só os super-heróis continuam os mesmos. E isso, infelizmente, os está matando mais rápido que a onda de antimatéria do Antimonitor.

A roda foi criada com o Superman em 1938. Ela foi reinventada com o surgimento da Marvel em 1962. Precisamos reinventá-la uma vez mais.

ENTREVISTA: IVAN REIS



Essa é uma entrevista feita com Ivan Reis, o grande desenhista brasileiro de quadrinhos do momento (quer dizer, do momento já faz um bom tempo, afinal, o cara detona!) no ano passado para um blog de quadrinhos, mas que o editor-chefe, por razões que não lembro, acabou não querendo publicar.

Como eu discordo dele, publico-a agora, mesmo com o timing um pouco atrasado (porque eu esqueci da existência dela com tanta coisa pra fazer, me perdoe).

O legal é ver coisas que hoje estão diferentes, como o fato de ele ter dito que faria um Sinestro: Secret Origins, o que obviamente foi abortado pela DC devido ao recente relaunch.

Sem mais enrolações, com você, Ivan Reis.

1) Hoje conhecemos Ivan Reis, o ótimo desenhista de Lanterna Verde. Porém, poucos sabem de sua trajetória até onde está hoje. De maneira resumida, como você começou na área de quadrinhos e como chegou até a DC?
Comecei com Histórias Reais de Drácula da antiga Block Editora aos 14 anos fazendo uma história curta de terror e aos 16 anos entrei para o estúdio do Maurício de Souza onde tive conhecimento do Art & Comics e dos artistas que trabalhavam no mercado estrangeiro e 3 anos depois, com vários testes e treinos, peguei meu primeiro trabalho para o mercado americano na Dark Horse e não parei mais.

2) Você tem vontade de publicar algo por aqui? Seria esporádico ou algo mensal mesmo? Se sim, que características teria? Você escreveria ou faria parceria com algum roteirista brasileiro? Se sim, com quem? E no mercado americano, faria algo autoral? Se sim, faria parceria com que roteirista? E levaria algum roteirista brasileiro pra criar um projeto para o mercado americano?
Não me preocupo com o local onde eu publico e sim com a possibilidade de trabalhar e sobreviver fazendo quadrinhos. Não tenho projetos, nem planos futuros para trabalhos autorais. Sempre tive sorte com os roteiristas com quem trabalho e nunca me preocupei em trabalhar com algum roteirista em particular... deixo as oportunidades surgirem e tento aproveitar todas na medida do possível.

3) É muito comum artistas como você encontrarem espaço no mercado estadunidense, mas não em nosso país. Qual você acredita estar sendo a maior dificuldade para que uma indústria de histórias em quadrinhos consiga se firmar?
Embora esteja no Brasil, estou fora do mercado brasileiro por muitos anos, não saberia te dizer qual é a realidade do mercado hoje em dia. Publicar você consegue, viver disso é outra história.

4) Através de votação realizada por um respeitado veículo de informações sobre quadrinhos, o site Newsarama, você foi eleito o melhor artista de 2009 e tem recebido indicações em várias outras premiações. E o mérito de receber esse título é grande, pois concorreu com excelentes profissionais como Dale Eaglesham, Steve McNiven, Doug Mahnke, Ethan Van Sciver, Frank Quitely, George Perez e foi para a final com o excelente J.H. Williams III. Qual você acredita ter sido o diferencial em sua arte para que os leitores o elegessem o melhor artista de 2009 em detrimento de seus incríveis e competentes “rivais” nesta votação?
Não diria que foi por causa da arte exclusivamente, mas sim que na reta final tive ajuda de muitos brasileiros votando em mim.... hahahaha!

5) A Tropa dos Lanternas Verdes é composta pelas mais variadas formas de vida alienígenas, e você conseguiu mostrar a grande diversidade do grupo. Além disso, mostrou também esta diversidade na Tropa Sinestro, quando retratou terríveis e assustadores soldados do espectro amarelo, como Kryb, Slushh, Arkillo e outros. Em meio a tanta variedade, houve algum personagem que representou algum desafio para você?
Todos tem a sua dificuldade em particular, não existe um específico.

6) Por falar em desafio, você teve o privilegio de ser um dos primeiros artistas a desenhar Barry Allen, e devo confessar que você mostrou um Flash de maneira bastante diferente, de modo que ele aparenta estar em todos os lugares ao mesmo tempo e chega a ser angustiante vê-lo se movimentando sem parar. O que você levou em consideração para desenhar o Flash e como você buscou deixar claro a um leitor desavisado que quem estava usando aquele uniforme vermelho era Barry Allen e não Wally West?
Só tentei reproduzir uma idéia que era do Geoff (Johns, roteirista da série), ele me passou o conceito do que ele queria pro Flash. Foi bem interessante dar um ar novo para os movimentos de velocidade do Flash. Em relação a quem estava vestindo o uniforme Barry ou Wally isso tem mais a ver com como o roteirista escreve a personalidade de cada um.

7) A Noite Mais Densa é uma história com um pé no terror, pois apesar de estar dentro do gênero de super-heróis traz um elemento clássico dos contos de terror: mortos-vivos; os quais, aliás, você chega a representar de maneira bastante aterrorizante e, algumas vezes, até mesmo perturbadora. Na verdade, mesmo alguns membros da Tropa Sinestro chegam a ser representados de maneira bastante assustadora. Qual é, afinal, sua relação com este gênero?
Foi o gênero com o qual comecei minha carreira... ele chega a ser natural para mim. Sem contar que passei muitos anos fazendo estórias de terror e fantasia na antiga Chaos! Comics, fazendo Lady Death.

8) Há algum título da DC ou de qualquer outra editora que você almeja poder desenhar no futuro? Você já fez trabalhos para a Marvel quando ainda estava se firmando. Você pensa um dia ir de vez para lá ou já fez da DC sua casa? Se sim, o que gostaria de desenhar na Casa das Ideias?
Meu personagem de infância é Conan, espero um dia poder desenhá-lo. Durante minha carreira já fiz muitas coisas para a Marvel também. E claro que pretendo um dia fazer um projeto com eles, mas isso é para um futuro não muito imediato, pois tenho na DC um mundo de possibilidades antes delas se esgotarem. Na Marvel, gosto do Thor e do Hulk.

9) Agora, uma pergunta que não pode deixar de ser feita, porém não sei se é possível que você possa respondê-la. Terminada sua passagem em Lanterna Verde com Sinestro: Secret Origins (anunciado na San Diego Comic Con), qual será seu próximo trabalho na DC? Pode falar ou ao menos dar uma pista?
Não posso contar o que vai acontecer... em relação ao Sinestro, ainda estamos vendo as possibilidades porque o Geoff anda muito ocupado com os preparativos do filme.

10) Desde 1989 que os desenhistas brasileiros fazem trabalhos para o mercado estrangeiro de forma regular, em um mercado aberto por Marcelo Campos e Watson Portela. Com sua experiência nos bastidores do mercado americano, como você acha que as coisas poderiam acontecer para os roteiristas brasileiros?
Isso é realmente muito difícil de acontecer.... mas não é impossível, boa sorte para quem tentar, pois eu sou desenhista e sei como é difícil conquistar um espaço em outros mercados, levando em conta que o desenho é universal e a escrita depende de cultura e costumes específicos de cada região.

11) O que acha dos quadrinhos digitais? Acha que é o futuro? Co-existirá com quadrinhos impressos? Aparelhos como o iPad podem fazer mesmo a diferença?
Sim acredito que os quadrinhos digitais sejam o futuro para as mensais e o papel para as coletâneas, mas isso a longo, longo prazo, pois leva anos e anos para uma tecnologia se tornar acessível a todos. Acredito que pelo menos na minha vida o máximo que vai acontecer é elas co-existirem.

12) Por fim, uma pergunta a título de curiosidade. O que você está lendo atualmente e qual é seu grande palpite para 2011 dentro da DC e também no cenário nacional?
No momento não estou lendo nenhum quadrinhos...os prazos de Brightest Day estão me comendo a alma. Meu grande palpite para a DC é meu próximo projeto, hahahaha. Acredito que ainda teremos muitas coisas com a Turma da Mônica Jovem para esse ano.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

HQ: CRÍTICA DE JUSTICE LEAGUE #1



A partir desta quinta-feira, o universo DC como você o conhece não existe mais. Ontem ocorreu o lançamento de Justice League #1, fazendo um relançamento desse universo de quadrinhos. Para quem não sabe, trata-se de uma estratégia da editora para conseguir novos leitores e evitar danos da pirataria ao lançar a HQ digital simultaneamente com a HQ impressa. Há também uma mudança de postura quanto à maneira de contar as histórias, voltada mais aos jovens. É preciso lembrar que o público atual de histórias em quadrinhos tem um perfil mais velho, são trabalhadores, totalmente o contrário de décadas atrás, onde as HQs tinham um perfil infanto-juvenil.

Porém, se a ideia dará certo, tenho cá minha dúvidas. Ao menos, se depender dessa primeira edição. Acredito que é um engano monumental começar o novo universo DC com a revista da equipe. Deveríamos ser apresentados primeiro às novas versões de cada herói para depois vermos como surge uma nova Liga da Justiça. Ao dar de cara com os novos heróis já se encontrando sem saber quais detalhes de suas vidas mudaram dá uma sensação ruim de que algo não se encaixa, que tudo é superficial.

Quando a capa é o que mais impressiona...
Escrita por Geoff Johns e com desenho de Jim Lee, a HQ é arrastada, sonolenta, cheia de clichês e demais erros que são cometidos normalmente por um roteirista iniciante e não alguém do calibre de Johns. Um dos erros mais gritantes é não ter uma estrutura de roteiro, ficando os acontecimentos a esmo. O ideal - e que normalmente acontece - é que haja uma microestrutura dentro de uma macroestrutura, onde a primeira trabalha a favor da segunda. Qual é a estrutura da macro - e em quantos capítulos será - só podemos especular. Essa edição tem cara de ser metade de um primeiro ato e se for isso mesmo - de modo que o ponto de virada da macroestrutura ficou para o final da segunda edição - teremos um arco de história em oito partes. Grant Morrison nos mostrou pouco mais de dez anos atrás que é possível fazer uma senhora historia em quatro partes logo com o primeiro arco de sua versão da Liga. Ele não tinha que apresentar personagens? Não tinha, mas tinha que apresentar a dinâmica da nova Liga da Justiça e fez não só isso, mas plantou as sementes - de forma óbvia - de coisas que ele ainda iria trabalhar em arcos futuros. Se a DC quer fazer a molecada comprar gibis, começar com oito partes com personagens cujas características já são conhecidas pode ser um tiro no pé. Se ao menos fossem personagens desconhecidos, nunca antes vistos, onde o fator surpresa ajuda muito, seria outra coisa.

Johns abdica da estrutura, preferindo - infelizmente - colocar os personagens em situações que mostrem como é o status do início desse novo universo DC, como um Hal Jordan ainda arrogante. Para piorar, ao passar meses tentando explicar esse relançamento, Dan Didio e seus "comparsas" falaram à exaustão disso, de modo que, ao ler a HQ, você não tem surpresa alguma. Me deu a sensação de que eu estava lendo material velho. Complementando, a relação quadrinhos/internet precisa também ser repensada na mídia, em como rola o tratamento com a imprensa especializada. Me chame de chato, mas as notícias estão acabando com o gostinho de novidade.

A maior parte das conversas: sobrem quem é o que.
Há um rascunho de enredo, onde um alienígena sinistro é perseguido em Gotham por Batman e Lanterna Verde. O que o alienígena fazia ali? O que ele queria? De onde veio? Essas são perguntas muito rasas, básicas para ficar só nelas. Em uma tentativa de colocar profundidade e despertar mais interesse, John faz o alienígena colocar um artefato desconhecido na Terra e entre suas falas, enaltecer Darkseid. Desculpe, Johns, ainda é muito pouco.

O único pedaço onde parece haver alguma trama verdadeira ocorre com Victor Stone. Sim, Victor Stone, porque ele ainda não é o Ciborgue. Obviamente, durante a trama, será mostrado como ele se tornará o icônico herói que em um outrora universo DC foi um dos Novos Titãs. Ainda assim, para quem conhece a história do personagem, não há muita novidade a não ser que o pai dele tem ligações com os seres superpoderosos que estão surgindo no mundo na época da trama. Mais uma vez, muito pouco.

A edição prossegue com Batman, Lanterna e Victor até as duas últimas páginas, onde mais um herói da Liga aparece, mas de maneira ainda estranha, sem tempero.

Se o resto das revistas seguirem essa linha, esperem por histórias recheadas de ação, mas bem simplórias em questão de enredo. Espero estar enganado, mas dá um gostinho amargo de Image Comics e Heróis Renascem.

Batman de armadura com Lanterna tradicional: discrepância.
Isso me remete a Jim Lee, que esteve envolvido em ambas as empreitadas. Quero deixar claro que não sou um dos detratores da arte dele. De uns tempos pra cá parece que uma leva de leitores quer fazer dele o novo Rob Liefeld, o que é muita crueldade, mesmo que você não goste da arte do coreano. Eu gosto de Lee - ele tem seus defeitos, mas tem qualidades na maior parte de suas características - e acho que ele melhorou muito a partir de "Silêncio", grandioso arco de história com o Batman no quesito arte, mas ridículo no quesito roteiro. Lee de vez em quando comete um ou outro deslize quando faz uma história, mas os acertos são tão numerosos que mascaram esses deslizes. Não é o caso de Justice League #1. Não há nada na arte dele que não seja algo que já tenhamos visto nesta edição. Inclusive, ele parece ter feito o lápis às pressas, sem dedicação. Muito da arte dele nesta revista é mais mérito de Scott Williams (arte-final) e Alex Sinclair (cores) do que do próprio Lee.

Quanto ao visual do heróis, ponto negativo mais uma vez. Os detalhes do traje do homem-morcego, que tenta emular uma armadura como é nos longas de Christopher Nolan, funciona de forma mediana no traço de Lee, isso porque ele é o idealizador do visual. E aparentemente, tais recursos funcionam - ou deveriam - no traço dele. Não há garantias de como tais adereços irão funcionar no estilo dos outros desenhistas da casa. Parece que houve um egoísmo da parte de Lee na criação dos designs.

No caso do Lanterna, não houve grandes mudanças. O Lanterna parece destoar de Batman e do outro personagem que aparece no final. A sensação que dá com o Lanterna é que ainda estamos no universo tradicional. A discrepância é muito grande.

Se querem atrair a molecadinha, o lance de uniformes mais "realistas" é um retrocesso. Muitos reclamam - dos leitores tradicionais, os mais velhos - que roupas colantes são ridículas. Fora do contexto é, concordo. Mas dentro do contexto - e o contexto é uma história em quadrinhos - elas são feitas da maneira que são para graficamente funcionarem em qualquer estilo de desenho. Por isso tem essas características. Ao optar pelo realismo das armaduras e apetrechos, a possibilidade que desenhistas não se adaptem a esses recursos visuais é grande, correndo um risco ainda maior de vermos desenhos ruins.

Resta apenas rezar para que a história melhore, assim como por um bom início desse novo universo.

Justice League #1 
DC Comics - Setembro de 2011
Roteiro de Geoff Johns
Desenhos de Jim Lee
Arte-final de Scott Williams
Cores de Alex Sinclair


Nota: 3,0

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Review: ROAD SALT ONE - PAIN OF SALVATION

Road Salt One

Road Salt One é o mais novo álbum da banda sueca de prog metal Pain of Salvation. É o sétimo trabalho de estúdio e sucessor de Scarsick. Ele faz parte de um álbum duplo que está sendo lançado em separado. A previsão de chegada de "Road Salt Two" é para setembro próximo.

Como qualquer trabalho da banda, trata-se de um álbum conceitual, com uma história de pano de fundo. De acordo com o vocalista, guitarrista e líder, Daniel Gildenlöw, "Road Salt One" é um apanhado de histórias paralelas que não são nem ficcionais e nem autobiográficas, de modo que é centrado no tema de "fazer escolhas", focando nas escolhas feitas por cada personagem. Gildenlöw tem comparado muito o álbum à ideia central do filme Magnolia, de Tom Cruise, em suas entrevistas.

Como os conceitos e brincadeiras criadas por Gildenlöw são muito abertas a interpretações, neste texto tratarei das minhas, estejam elas certas ou erradas.

O álbum começa com a gritante e agitada "No Way". Sua letra demonstra a história de um homem que está apaixonado por uma garota e recebe avisos do ex dela sobre as camadas - pra não dizer cicatrizes - emocionais em seu coração. É uma canção que fala sobre como as pessoas afetam umas às outras no âmbito profundamente sentimental, emocional, mais na questão de relacionamentos amorosos.

Normalmente, quando conhecemos e nos apaixonamos por alguém,a pessoa é novidade para nós. É um terreno a ser explorado e o que cada pessoa é nos relacionamentos, é reflexo de suas experiências passadas. "No Way" explora como essas experiências afetam quem está chegando, quem quer conquistar alguém que já trilhou caminhos de felicidade e depressão causados por relacionamentos amorosos.

Musicalmente, é muito mais cru, como um rock old school, um de volta ao básico estilão anos 70, remetendo a The Who, The Doors. Gildenlöw consegue fazer um progressivo usando da filosofia do menos é mais, coisa impensável quando se trata do gênero. São guitarras mais cruas, com uma sonoridade específica da época nos teclados, algumas pausas bruscas que lembram daqueles anos encontrada em 90% das bandas de então. Seu vocal brinca, como de costume, entre o grave e o agudo, sem dever nada a outros trabalhos e seguindo a tendo por inspiração Ian Gillan (Deep Purple) e Jim Morrison (The Doors), mas com sua maneira pessoal de interpretá-los. A bateria talvez seja o mais contemporâneo da cozinha toda, mas encaixa-se com uma perfeição absurda. É um ótimo início de álbum e um belo cartão de visitas para o resto do trabalho.

Na sequência, "She Likes To Hide" fala de como nos fechamos depois de uma recente ferida emocional. O grande quê aqui não é nem tanto a letra - coisa difícil de acontecer em um trabalho de Gildenlöw - mas o conjunto da obra, o resultado final, de modo que as melodias, tanto dos instrumentos quanto do vocal dele é que são o grande destaque. Possui uma levada de blues, mas com mais peso para as guitarras. É uma canção mais crua ainda do que "No Way" do ponto de vista progressivo, mas que não tem o erro de ser simples demais.

"Sisters" é a terceira e tem uma levada quase de marcha em boa parte da bateria e dá mais destaque para piano e teclado, deixando as cordas das guitarras e baixo mais para complementos e com um timbre mais característico de instrumentos de décadas atrás, mostrando um esmero especial da banda quanto a detalhes. A letra é um aberto absurdo para interpretações, de modo que ainda não consegui chegar a um consenso em minhas audições.

Daniel Gildenlöw, o gênio musical por trás do Pain of Salvation
Com um começo vocal - ok, pode me chamar de herege - que me lembra uma certa canção de Toni Braxton, "Of Dust" me causou estranheza da primeira vez. Porém, conforme os segundos passam, tal sensação foi - graças ao bom Deus - deixada de lado. Com um backing vocal bem executado e colocado pelos outros membros do grupo e com Daniel alternando entre o canto quase lírico e com inspirações de corais religiosos e o discurso mais íntimo, a melodia dos instrumentos serve apenas para criar o clima desejado. A letra encarna perfeitamente o clima ao falar de quando precisamos realizar mudanças drásticas, internas ou externas, e temos problemas em ir ou não adiante, eu deixar tudo como está ou mudar de vez. É algo muito ímtimo de uma pessoa, algo quase religioso, daí a escolha por esse caminho musical.

"Tell Me You Don't Know" é uma das mais interessantes tanto na melodia quanto nas letras. O classicismo é um dos grandes problemas do ser humano. A mania de se achar melhor do que o resto, mais especial, de ter sempre a razão. E isso é questionado na figura de uma pessoa que tem seus ideais, dogmas e preceitos quebrados e precisa se reencontrar no mundo. A ambientação folk da melodia dá uma sensação quase interiorana, como se a figura fosse um caipira que vai para a cidade grande pela primeira vez. A essa altura do campeonato, nota-se que eles estão tocando músicas mais curtas, mais acessíveis, diferentes das grandes obras de mais de dez minutos que caracterizam o progressivo.

"Sleeping Under the Stars" é algo bizarro e ao mesmo tempo com escolhas tão acertadas que cria algo curioso. Parece uma melodia tiradas dos maiores circos de aberrações que você puder imaginar, criando um clima de filme de terror com cenários circenses estranhos. A combinação dos intrumentos deixa a imaginação voar fácil por cenários assim. O vocal altamente interpretativo de Daniel faz dele quase um mestre dos picadeiros. Já a letra caminha por uma personagem que tem uma vida boêmia e desregrada, onde tudo é festa e curtição, tornando-se quase uma personagem de showbizz, questionando se uma vida assim realmente vale à pena, se há profundidade e significado em seguir dessa maneira.

A sisuda "Darkness of Mine" quebra todo o clima agitado das duas canções anteriores, caindo para o sombrio e tenebroso. Em alguns momentos, lembra até algumas coisinhas do Black Sabbath. Seu timbre é quase cinematográfico e a agitação repentina no refrão é quase como um vilão de terror fazendo sua aparição triunfal, assim como sua parada repentina é quase uma fuga deste. Daniel canta como alguém cuja vida está perdida, destroçada, exatamente como as de viciados em drogas quando estão perdendo a luta para as substâncias ilíticas, que é o tema da letra. O backing vocal é quase a droga em si, viva, como se estivesse sussurrando no ouvido de seu usuário, pedindo por mais. É com certeza um dos melhores momentos do álbum.

"Linoleum" é o carro-chefe desse trabalho, uma das primeiras canções a ser divulgadas em EPs. É a mais agitada e direta, talvez a mais comercial mesmo. Creio que todas as pessoas já passaram por momentos de fragilidade onde não podemos desabar diante das dificuldades impostas pela vida na tentativa de seguir adiante. É sobre isso que trata "Linoleum" de uma forma brilhante, mesmo tendo um apelo mais vendável. É quase uma mistura de The Doors com Soundgarden de uma maneira única. A levada a dois minutos e trinta e cinco na música é quase lisergicamente hipnótica. É incrível como Daniel consegue criar algo comercial e ao mesmo tempo com uma sincronia criativa e inesperadamente incrível nos instrumentos. A brincadeira entre vocal e backing vocals não dá vontade de parar de cantarolar junto.

Talvez "Curiosity" seja o ponto mais baixo do novo álbum, mas ainda assim, melhor do que 90% sendo feito hoje no mercado. Ela segue a linha agitada de "Linoleum", porém, de uma maneira diferente e quase caótica. Só fui gostar mesmo dela com várias audições e foi a mais difícil de lembrar quando refletia sobre "Road Salt One". A letra brinca sobre como um casal interpreta o que é amor e como essas interpretações afetam o relacionamento deles.

A coisa aumenta novamente de nível com a chegada de "Where It Hurts", que segue a linha sinistra de "Darkness of Mine". Essa música tem a temática de explorar nossos pontos fracos, onde realmente nós podemos ser machucados, não importa de que forma seja. É cruel e doloroso, é raivoso e deprimente. É mais um momento brilhante de "Road Salt One". Essa canção, assim como em todo o resto do álbum, mostra o que é difícil hoje em dia: uma banda que prima sobre que forma passará uma mensagem e quais são os melhores meios para isso. Uma instrumento não quer aparecer mais do que o outro ou quando o faz, tem uma razão para tanto. Recentemente ganhou um clipe que foi banido do Youtube e do Vimeo devido a aparecer uma garota parcialmente nua, ter muito sangue e até um coração batendo na mão de Daniel. Pessoalmente, não considero o clipe tão pesado assim para tanto, mas como há sempre o politicamente correto e a falsa moralidade reinando em muitos lugares, não é de se surpreender.

Hermansson, Margarit, Hallgren e Gildenlöw
Logo depois vem a música que dá nome ao trabalho, "Road Salt". É um dos momentos mais puros e emocionantes de todo o CD. É uma letra perfeita, direta e que cativa qualquer pessoa ao lidar com a temática de que às vezes temos que levar o mundo inteiro nas costas, como se fôssemos milhares de Aquiles. "Maybe it's not enough. Maybe this time it's just too much. Maybe I'm not that tough" é um trecho que dá pra resumir a ideia da canção. A emoção que Daniel coloca na voz é de chorar e é o grande destaque dela, tendo as melodias como pano de fundo quase como uma canção de ninar, como se a "estrada dura demais" falada nas letras fizesse o ouvinto implorar para voltar à inocente época da infância.

Por fim, a décima segunda e última canção de "Road Salt One" é "Innocence". E vou te dizer, que senhora canção. É a melhor, disparada, de todo o trabalho. Só consigo imaginar que o único motivo de Daniel tê-la colocado por último é para pedir por mais, fazendo ficar aquela vontade de "Road Salt Two" ser lançado o mais rápido possível. É uma canção que te faz refletir sobre os momentos em que você aposta todas as suas fichas em uma certa direção em sua vida, dá com a cara na parede e tem que recomeçar. É sobre redenção - um tema pelo qual tenho uma queda forte - e como lidamos com o fato de estarmos errados, de ter nossas convicções testadas e quebradas. É sobre a reinvenção do eu em todas as camadas do ser humano até o âmago do ser. Eu não consigo colocar em palavras como a melodia dos instrumentos soa em conjunto com os vocais e como formam um conjunto de indiscutível qualidade.

O Pain of Salvation tem, por característica, nunca fazer um trabalho igual ao outro. Seus álbuns são sempre diferentes um do outro, seguindo por caminhos distintos e imprevisíveis. A capacidade de reinvenção deles é algo sobrehumano. Porém, a linha que seguem em "Road Salt One" começou em outro trabalho, "Be". Hoje há duas fases distintas, que poderiam ser chamadas de "antes e depois de Be". Muitos ainda preferem a sonoridade antiga - como eu - mas não pode-se negar que a nova sonoridade do grupo, descoberta depois de "Be" é algo indescritivelmente criativo. Depois de "Be", eles se tornaram um grupo mais cru, mostrando que perfeição musical não é apenas tocar milhões de notas por segundo e sim atingir em cheio o coração do ouvinte. Antes, eles tinham uma carga pesada e um som absurdamente mais trabalhado na perícia musical e ainda assim, conseguiam um equilíbrio monstro entre técnica e feeling, coisa que muitas bandas do progressivo não conseguem. Agora, o PoS é muito mais feeling do que velocidade da dedilhada, complexidade sonora ou afins. Está mais para uma viagem a lá Pink Floyd do que para a trampagem do Rush; mais para as bizarrices bacanas de Björk do que para um épico estilo Yes.

Depois de "Be", ninguém sabe o que o PoS - e em especial, o Daniel - iria fazer. Seu sucessor, "Scarsick", sacramentou as mudanças que "Be" trouxera, goste ou não - e boa parte dos fãs não engoliu - e "Road Salt One" é a evolução natural dessa nova linha de pensamento, é a consagração de algo que vem sendo trabalhado cuidadosamente por Daniel e cia.

"Road Salt One" dá uma ótima ideia do que esperar de "Road Salt Two", mas também faz crescer a vontade de ouvir o que vem além, de ouvir aquilo que nem existe, que é o que virá depois de "Road Salt Two". Se seguir a já citada evolução natural, imagino que seja algo complexo como era em sua sonoridade "pré-Be", mas com uma cara da fase "pós-Be".

Esse é um dos melhores trabalhos musiciais nos últimos anos e uma senhora lição de rock.

Road Salt One
Pain of Salvation
Inside Out Music/Hellion


1. No Way (5:26)
2. She Likes to Hide (2:57)
3. Sisters (6:15)
4. Of Dust (2:32)
5. Tell Me You Don't Know (2:42)
6. Sleeping Under the Stars (3:37)
7. Darkness of Mine (4:15)
8. Linoleum (4:55)
9. Curiosity (3:33)
10. Where It Hurts (4:51)
11. Road Salt (3:02)
12. Innocence (7:13)

Daniel Gildenlöw - vocal, guitarra e baixo
Johan Hallgren - backing vocals e guitarra
Leo Margarit - backing vocals, bateria e percussão
Fredrik Hermansson - backing vocals, piano e teclados