Publicado originalmente no site A ARCA no dia 07/10/2005.
Em primeiro lugar: não tentem isto em casa, crianças!
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Acabei de ler A Ciência dos Super-Heróis, de Lois Gresh e Robert Weinberg e foi uma experiência fantástica. Pra você, que não está entendendo nada por qualquer motivo que seja, vou dar uma explicação rápida: o livro, recém lançado no Brasil pela Editora Ediouro, foi escrito por dois cientistas, amantes das histórias em quadrinhos e séries de ficção. Através da ciência, eles explicam como funcionam (ou não funcionam) os poderes dos heróis que todos nós adoramos.
O livro possui algumas limitações, mas já falo disso, nada que o estrague muito. Primeiro, há uma introdução, importante para quem não lê quadrinhos e até dispensável (ah, vai mas vale pela curiosidade, não?) para quem é leitor assíduo todo mês de X-Men, Flash e todos os outros.
Depois da introdução, com quem eles começam? Se o Superman é o primeiro e o maior de todos os heróis, nada como começar com ele, certo? Ok, em primeiro lugar, a premissa básica do personagem é: ele é um alienígena. Dessa forma, os autores começam, antes de falar de seus poderes, sobre como o personagem surgiu na nossa sociedade e dão um breve resumo de sua origem, aquela que todo mundo conhece, de Krypton explodindo e tal. Essa introdução é feita com cada personagem abordado, mostrando que eles se preocuparam sim com aqueles que não são leitores de quadrinhos.
Bom, depois da origem, vamos aos fatos? Bom, o Superman é um alienígena, então as perguntas iniciais são: existe vida fora da Terra? Existem outras civilizações avançadas através do cosmo? As explicações passam pelas teorias vistas na ufologia (Sem se aprofundar muito, já que o assunto não é esse), chegando às teorias do renomado astrônomo Carl Sagan (um dos maiores entusiastas do caso) e indo também pelo lado dos pessimistas que não acreditam muito em vida fora da Terra por suas próprias razões e teorias. Fazendo um apanhado disso, tentam explicar primeiro a existência do Superman.
Depois chegam nos poderes. Ah, ele é forte, resistente, tem visão de calor e tudo isso devido à gravidade diferente de Krypton e à exposição a um sol diferente de seu planeta natal? Isso é possível. Aí é que eles entram nos estudos de gravidades planetárias, radiação solar e como isso afeta os seres vivos. E levando em consideração, claro, de como alienígenas podem ser diferentes de nós. Uma a uma, as características do Superman são esmiuçadas, provando se ele pode ou não existir. E claro, levando em consideração que, teoricamente, ninguém sabe como é um alienígena e como ele reagiria em nosso ambiente.
E não espere que seu herói preferido esteja aqui. Segundo os próprios autores, eles tiveram um critério de seleção para os personagens: os mais populares e diferentes entre si. Assim, quiseram atingir o maior número possível de leitores, sendo de quadrinhos ou não.
Em seguida, vemos os próximos heróis, Quarteto Fantástico e Hulk. Por quê foram colocados juntos? Por quê ambos lidam com radiação. Raios cósmicos e raios gama. Como são os raios cósmicos de verdade? E os raios gama, como funcionam em seres vivos? Tudo é esmiuçado de forma clara na maior parte do tempo. E digo maior parte do tempo porque chega momentos no livro inteiro em que fórmulas fisico-químicas entram em pauta, não há outro jeito, mas você vê que os autores se esforaçaram em deixar a linguagem o mais clara possível.
O mais legal nessa parte, é constatar, por exemplo, sem revelar muito, que o Hulk pode não existir com a origem que tem nos quadrinhos, mas os autores explicam que o Hulk poderia existir com uma outra origem, perfeitamente possível. Sim, o Hulk como o conhecemos, verde, grande, forte e raivoso pode existir. Mas não se preocupe, fica evidente a frase "não tentem isso em casa, crianças", mesmo porque os fatores que fariam com que o golias verde existisse são bem complexos. Mas que dá medo, ah, isso dá...
Poderes? Já vimos bastante e depois voltaremos a eles, ok? Sim, você advinhou, tá na hora de falar do Batman. E você ainda tem alguma dúvida? Sim, ele pode existir, pode ser eu, você ou o seu vizinho. Porém, no que concerne o equipamento, ou seja, as bugigangas dele... bem, se eu te contar que arranjar os equipamentos dele é mais fácil e barato do que você imagina? E não estou falando de batmóvel, batcomputadores e essas engenhocas realmente caras, mas sim apenas do que ele carrega em seu cinto de utilidades.
Voltando aos poderes, agora é a vez de dois semelhantes, Aquaman e Namor, o Príncipe Submarino. Tudo é visto nos mínimos detalhes: o funcionamento de guelras, a telepatica aquática e como o ser humano poderia desenvolver isso, passando até pelo maior obstáculo aquático do homem: a pressão das profundezas. Levando em consideração tudo isso, o capítulo até surpreende e é divertidíssimo.
Agora é a vez daquele que o meu amigo El Cid tanto esperava: o Homem-Aranha. E você sabia que ele parece menos com uma aranha do que se imagina? Levando em consideração a biologia das aranhas e a nossa, fazendo o devido e possível (com os pés no chão) mix de ambos, apenas metade de seus poderes seria o equivalente ao de uma aranha. E não vou dizer quais para não estragar a surpresa. Porém, fiquei muito tentado a reproduzir aqui um pequeno trecho que não vai estragar nada e também vai solucionar uma dúvida cruel que leitores de mente suja têm sobre o personagem: a teia.
Depois de uma longa explicação de como aranha produzem a teia e do que ela é feita, os autores se esmiuçam em adaptá-la para nossa biologia. Se é possível ou não, não vou dizer, mas segue o tal trecho, divertidíssimo e que ilumina muita coisa: "É claro que, se Peter adquirisse a habilidade de fazer fios de seda , a preocupação imediata seria onde faria essa seda e, mais importante ainda, de onde sairia de seu corpo. Ambas as perguntas é melhor que não sejam feitas, e talvez evitando-as a gente responde à pergunta por que Stan Lee preferiu usar os lançadores de teia" - Hahaha, é algo que todo mundo sabe e se esperavam por alguma confirmação científica, êi-la, hehe...
E sim, El Cid, eles falam dos malditos clones...
Pra mim, a melhor parte do livro vem com a explicação sobre os Lanternas Verdes, que é a seguinte. Entrando em uma complicada teoria sobre as estrelas, os buracos negros e brancos (estes últimos, só existem na teoria) e os espectros de luz, os autores tentam explicar mais a tal energia verde que abastece o anel e não se preocupam muito com as capacidades dele de criar qualquer coisa. Afinal, sem a tal energia lendária, o anel não faz nada. Porém, com toda a explicação da energia, por tabela, se você prestar bem atenção e usar a lógica, vai ver que as capacidades do anel ficam subentendidas. Eu simplesmente fiquei embasbacado com as explicações se pode ou não haver um lanterna verde e fazendo uso de um exercício de imaginação com as teorias apresentadas, o personagem seria o herói mais poderoso de todos os tempos de longe, deixando até o Superman como uma simples criancinha. Legal, não?
Em seguida vez os heróis mais desafiadores das leia da física, química e biologia: Elektron e Homem-Formiga. Só pra resumir, usam leis da física como a Lei do Quadrado e do Cubo, aceita e entendida por qualquer cientista que se preze, tentando explicar os pormenores de se reduzir algo (principalmente biológico) ou aumentar seu tamanho rapidamente. Seria possível diminuir seres vivos a um tamanho quase microscópico? Sim, até é possível, mas há implicações e efeitos colaterais suficientes para saber que não seria muito legal, apesar das muitas vantagens (como uma superforça proporcional, tornando qualquer um o rei do formigueiro) apresentadas. E bem, deixar alguém gigante? Eu resumo dizendo que não ia ser muito interessante...
Talvez o personagem que mais desafie a física ao lado dos dois aí acima, seja o Flash. E eis que vem toda aquela Teoria da Relatividade, velocidade da luz, atrito com o ar e tudo mais. Tudo isso, para explicar como alguém poderia ter supervelocidade. E digo poderia, pois ninguém precisa ser muito inteligente ou ler este livro pra saber que não dá. Mas que as explicações são interessantíssimas, - ah, são sim senhor. Inclusive, o capítulo é bem engraçado.
No capítulo seguinte, talvez seja o que todos esperam, os mutantes. Sim, falam sobre os X-Men. Tomando por base duas teorias opostas, a do evolucionismo e do criacionismo e analisando como a vida na Terra aconteceu e se desenvolveu, mostra como os X-Men poderiam existir. E se parar para pensar, sendo bem mente aberta, até assusta como eles mostram que, em um futuro não muito distante, o próximo passo evolutivo do homem é provavelmente (mas não exatamente) o que são os mutantes da Marvel. Assusta, não?
Sem entrar muito nos detalhes de como poderíamos soltar raios ou ter fator de cura, eles se preocupam mais como o como começaríamos a desenvolver essas habilidades e não em quais desenvolveríamos. Algumas, claro, ficam absurdamente óbvias, como por exemplo, poderíamos, num futuro, ter sentidos aguçados ou enxergar espectros de luz e não, de modo algum, ter uma pele de "aço orgânico".
Tentando entrar já no "mundo mais real", aparecem os heróis sem poderes, mas com engenhocas tecnológicas, como Flash Gordon e Buck Rogers, esses sim, perfeitamente possíveis daqui há uns cem, duzentos anos. E tudo depende de como o homem vai singrar pelo universo. O homem vai conseguir chegar a Marte? Se chegar, vai conseguir viver lá? E em Júpiter, é possível ter algum avanço? Se sim em ambos os casos, que descobertas faríamos? E devido a essas descobertas, como afetaria a tecnologia na Terra, devido às necessidades de criarmos aparatos tecnológicos para experiências? Um desses aparatos poderia ser mais útil com outro uso (mais heroico)? Inclusive, este é o capítulo que eu acho que o Fanboy ia delirar por ver suas teorias quase 100% confirmadas (mas não negadas): a de viagem no tempo. E eis que ficam respondidas, por alto, a existência de heróis espaciais.
E se você acha que já teve muita coisa inesperada no livro, eis que surge algo que vai completamente contra a maré do livro: os personagens da Disney como Tio Patinhas e Pato Donald. Não, patos humanoides não são, teoricamente possíveis e fica óbvio que isso não deve ser discutido. O que eles explicam são em como as motivações, modo de pensar, agir, e outras características da "família pato" são bem mais realistas do que a dos heróis e mostram como Carl Barks, o verdadeiro formador desse universo, mostrava as invenções utilizadas por Tio Patinhas em suas aventuras e os modos como saía de enrascadas, totalmente possíveis. Carl Barks, além de saber como ninguém contar uma história e desenhar pra caramba, ainda era cientificamente plausível, muito mais do que os super-heróis. Ok, o meu grande amigo Paulo Maffia deve estar pulando de alegria a uma hora dessas...
E sim, depois disso, eles explicam por que, além do motivo óbvio de espaço, deixaram alguns heróis de fora. E ainda tentam estimular os leitores a mandarem e-mails para a editora, pedindo por uma continuação (lógico, eles tem que sustentar sua família também, né?), que por mim, seria muito bem vinda. Aí sim, com continuações e mais continuações, heróis como Homem-de-Ferro, Homem Borracha, Canário Negro, Visão e outros poderiam ser explicados. E mostram porque, obviamente, deixaram de fora heróis como Thor, Dr. Estranho e Mulher-Maravilha, pois são heróis com origem mística. E magia e o sobrenatural não são aceitos pela ciência, como todo mundo sabe.
Por último, temos um debate entre os autores com quadrinhistas como Len Wein (criador do Wolverine e da segunda formação dos X-Men), Buddy Scalera (que já escreveu Deadpool, X-Men e trabalha como redator da Wizard americana) e outros. E nesse debate, o lado criativo misturado com a ciência é discutido, explicando o porquê de, às vezes, os quadrinhistas deixam de lado explicações mais convincentes em favor da história bem contada e como a ciência poderá ser usada e vista daqui pra frente no mundo dos quadrinhos.
Resmudindo, sem deixar se aprofundar muito (devido a alguns aspectos de certos poderes e origens serem obviamente impossíveis e outros, perfeitamente plausíveis) e na linguagem do limiar do compreensível, o livro é um prato cheio, tanto para quem lê gibi quanto para quem não lê. E muito útil para quadrinhistas profissionais, pois a luz que os autores lançam sobre alguns aspectos da origem e dos poderes podem ajudar a tornar seus personagens mais criveis na hora de fazer sua própria criação. Teve horas em que, confesso que fiquei tendo dificuldades de entender e isso se deve a algumas fórmulas apresentadas, mas há momentos em que não há como fugir disso. Ok, ok, ciências nunca foi meu forte mesmo...
Mesmo assim, mesmo com as fórmulas, os autores, logo em seguida, explicam passo a passo o que quer dizer cada uma e é aí que todo leitor deve ter cuidado. A batelada de informações é tão grande que a leitura deve ser lenta e reflexiva, caso contrário você se perderá no meio das suas próprias conjecturas e lógica, dificultando tudo. Sendo assim, o conselho é: leia devagarinho e com calma. E não tente ler um capítulo na frente do outro, só pra ver primeiro sobre seu herói preferido, pois a explicação de alguns deles está interligada, ou seja, se você não leu na ordem, o entendimento de alguns pode ser ainda um pouco mais difícil. E senti falta de ilustrações, pois o livro é inteiramente formado por textos. Creio que, algumas ilustrações mostrando cenas dos quadrinhos em que heróis usam seus poderes, poderiam facilitar o trabalho de imaginação e compreensão daqueles que não lêem gibis, sendo usadas como exemplos.
Se for para dar as famosas notas, dou 9,5 com louvor.
A Ciência dos Super-heróis, de Lois Gresh e Robert Weinberg. Editora Ediouro. 232 Páginas. R$ 39,90.
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Comentários Atuais:
Na mudaria absolutamente nada no texto. Está direto, objetivo, enxuto e divertido. Me orgulho dessa crítica, que tem um tom quase quadrinhístico.
Quanto ao texto em si, continua me agradando e até deu vontade de reler o livro. Peraí que já volto... ;)
Portfólio de redação web de Emílio Baraçal. Escrevi durante seis anos para o saudoso e extinto site A ARCA e para o também extinto AOL Brasil. Tenho textos no Delfos e no Soc! Tum! Pow! e mais alguns lugares que agora não me lembro. Escrevo sobre entretenimento, criando matérias, críticas e notícias nas áreas de cinema, quadrinhos, TV, RPG, música, brinquedos, video games, literatura, etc. Também realizei cobertura de eventos, entrevistas com personalidades nacionais e estrangeiras.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Crítica: MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA
Publicado originalmente no site A ARCA no dia 24/01/2006O trabalho definitivo de Zhang Ziyi!
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Meditando... concentração... controle sua respiração, Elfo... você precisa escrever uma crítica sobre esse filme... ok, é um filme complicado para você, mas... isso... meditando...
(olha para o cartaz do filme antes de entrar na sala de projeção... respira fundo e dá o primeiro passo)
Olha, já vou avisando: não li o livro. Sim, Memórias de uma Gueixa é baseado em um romance de sucesso lançado em 1997, escrito pelo americano Arthur Golden. E pretendo me redimir do pecado de não ter lido esse livro o mais breve possível. E por dois motivos: pra mim, que não li o livro, adorei o longa. E lógico, quem costuma acessar A ARCA regularmente, sabe que sou um entusiasta da cultura oriental.
Em primeiro lugar, devo avisar uma coisa. Este filme pode provocar alguma polêmica, dependendo de quem o assiste. Creio eu que há três tipos de públicos para essa produção. 1 - Quem não manja nada de cultura japonesa. 2 - Quem ama cultura japonesa (como eu) e 3 - Quem é japonês de verdade.
Se você não entende patavinas de cultura japonesa, mas gosta de películas que mostrem culturas diferentes, curte um romance, um drama cheio de reviravoltas, não vai ter do que reclamar. Se você é um entusiasta da cultura japonesa, pode ser que ache um ou outro defeito, mas creio ser difícil. Agora, se você é japonês (ou morou muuuuuuito tempo no Japão), pode ter um pouco da mesma reação de boa parte do povo da terra do sol nascente.
O que acontece é o seguinte: o filme é sobre gueixas, certo? Lá no Japão, reclamaram do fato de terem escalado, para dois dos papéis principais, duas atrizes chinesas, Zhang Ziyi (de O Clã das Adagas Voadoras) e Michelle Yeoh (de O Tigre e o Dragão). Sabe como é, japoneses e chineses não se bicam (reza a lenda... ou não, já que pode ser um fato), mas não é só isso não. Os japoneses podem até ter um tantinho de razão. É como se fossem filmar um filme sobre um jogador de futebol brasileiro e escalassem (olha o trocadilho aí!) um ator argentino para o papel. Ou se fosse sobre samba. Qualquer um pode dançar, mas só o brasileiro terá o gingado e a levada precisa para se tornar realmente natural.
É aí que fica o lance da coisa: será que a interpretação delas, o modo como encarnaram o papel de gueixas foi convincente? Se você nada sabe sobre cultura japonesa e menos ainda sobre este misterioso mundo das mulheres do entretenimento, se tiver algum erro, vai passar batido. Apenas divirta-se. Agora, se você é um entusiasta... pode ser que ache alguma coisa, embora eu ache difícil. Eu mesmo, não achei nada de errado nos maneirismos delas que, na minha sincera opinião, foram perfeitos. Agora se você é japonês... bom, tire suas conclusões, afinal, você tem autoridade para isso.
Em questão de interpretação, é díficil dizer quem foi melhor entre as duas. É muito fácil se identificar com a personagem de Ziyi através de cada emoção com a qual a atriz nos presenteia. Yeoh é igualmente competente nesse quesito (embora eu tenha ficado pendendo pro lado de Ziyi). Porém, Yeoh tem um probleminha: suas características étnicas são muito mais evidentes do que as de Ziyi. O rosto de Yeoh simplesmente não se encaixa no meio das atrizes japonesas. Porém, se você é da turma do "japonês, chinês e coreano é tudo igual!", não esquente a cabeça e curta o filme. Porém, se você é um entusiasta como eu, pode estranhar. Se tu for japonês então...
Ainda assim, há uma atriz que simplesmente engole Ziyi e Yeoh quando aparece em cena. E esta atriz é a maravilha do oriente chamada Gong Li (de Lanternas Vermelhas e Adeus Minha Concubina). Toda vez que ela dá as caras, não importa que emoção passe, raiva, cinismo, alegria, ódio, sedução, não importa: ela derruba qualquer um nessa película. Ou talvez não.
Entre os homens, quem mais se espera que se destaque é Ken Watanabe (de O Último Samurai e Batman Begins), não? Errado. Watanabe está muito bem. Mesmo. Entretanto, para azar dele, há ali no meio um ator chamado Koji Yakusho (é dele o papel principal do filme japonês que inspirou o longa americano Vamos Dançar?, com Richard Gere). A maior prova disso é a cara que ele faz quando Ziyi está dançando para todos em um palco. Sim, a mesma cena que vemos no trailer, onde flocos brancos caem sobre Ziyi no meio do escuro, onde a única fonte de luz incide sobre ela. Preste atenção no rosto de Yakusho e verá sobre o que estou falando.A direção deste longa ficou por conta do aclamado Rob Marshall, do musical Chicago. E que trabalho o cara fez: dá pra notar que ele tomou cuidado em relação a quase tudo. Cenários (deslumbrantes - tanto é que eu queria morar no cenário do jardim do Barão, um dos personagens), enquadramento, música (que por sinal, é do mestre John Williams, que consegue mais uma vez fazer o clima do filme entrar na alma de qualquer um com seu trabalho), figurino, edição, quase tudo feito de forma primorosa e cuidadosa. Você deve estar se perguntando o porque de eu ter citado "quase tudo" duas vezes, não? O defeito que mais me incomodou na produção foi o fato de eles terem preferido a interpretação em inglês ao invés do idioma usado ser o japonês. Se os atores são japoneses em sua maioria, por que isso? As interpretações de todos com certeza ficariam ainda muito melhores se fosse na lingua nativa deles (ou algo próximo, no caso das atrizes chinesas). Uma pena que tenham optado dessa forma.
É uma adaptação fiel do livro? Mais uma vez, digo que não o li, então não posso dizer se o longa é merecedor de comparação ao trabalho original, mas o roteiro escrito por Robin Swicord é bem amarrado, cheio de reviravoltas e possui humor sutil nos momentos certos e é cheio de drama e romance. Mas o mais legal de tudo é que me fez torcer pela personagem de Ziyi e me fez odiar a personagem de Gong Li.
O mundo das gueixas é muito bem retratado, mostrando seus costumes, seu dia-a-dia, seus códigos (como por exemplo, as gueixas não têm o direito de poder amar alguém), o modo como influenciavam os bastidores da política e da alta-sociedade japonesa, entre outros detalhes. Fiquei bastante impressionado como todas essas características foram apresentadas de forma balanceada, sem um sobressair ao outro.Bom, agora, que tal irmos para a história de "Memórias de uma Gueixa"? Pouco antes de ocorrer a 2ª Guerra Mundial (a história chega a atravessasr este fato histórico), uma menina, Chiyo (a adorável Suzuka Ohgo, impossível não gostar dela) é vendida por sua família a uma casa de gueixas como escrava. Sua irmã mais velha sofre o mesmo destino, mas é vendida para uma outra casa de gueixas que não se sabe onde fica. Dessa forma, não aceitando este fato, Chiyo quer, de qualquer forma, reencontrar a irmã.
Entretanto, uma coisa em Chiyo chama muito a atenção: ela tem belos e inesperados olhos azuis. Sendo assim, a senhoria que administra a casa de gueixas pensa em fazer a menina se tornar mais uma fonte de lucro. Porém, a maior gueixa dessa casa (e uma das mais disputadas da região), a egoísta, cruel e belíssima Hatsumomo (Gong Li) fica com inveja de Chiyo justamente pelos olhos azuis da menina, enxergando nela uma ameaça ao seu status. Claro que a maldita faz de tudo para tornar a vida de Chiyo um inferno (embora comparada às outras mulheres da casa, a vida de Chiyo não era muito diferente).
Triste, acontece algo na vida de Chiyo que dá a ela a motivação perfeita para se tornar uma gueixa. Sendo assim, ela corre atrás do tempo perdido. Hatsumomo, ao mesmo tempo que tenta fazer Chiyo desistir desse tipo de vida, precisa acabar com sua maior rival na região, a bela e requisitada Mameha (Michelle Yeoh), de uma casa de gueixas rival. Porém, Mameha vê um futuro promissor em Chiyo e faz negócios com a senhoria dela. Assim, Mameha se torna a nova mestra da menina na arte do entretenimento e da sedução conforme os anos passam (e claro, Ziyi interpreta a versão mais velha de Chiyo).
No meio disso, o caminho de todas elas cruzam com um homem que é conhecido apenas como "O Presidente" (Ken Watanabe), chamado assim por ser o cabeça de uma das maiores empresas da região. Seu melhor amigo é Nobu (Koji Yakusho), um companheiro de trabalho que odeia gueixas. E é com esses dois que o destino de Chiyo (que é rebatizada como Sayuri no meio do caminho) será traçado, resultando numa história bela e poética.
Resumindo, um filmaço, pelo menos para mim. Se você só está acostumado a assistir coisas com toneladas de efeitos especiais e com "nominhos da moda" no meio do elenco e mais outras coisas do gênero que em boa parte são vazias, vá assistir a "Memórias de uma Gueixa". É bom variar de vez em quando. Pode ser que você não goste, afinal, não é um filme de ação. Agora, se você gosta da cultura japonesa, não perca tempo. E se você é um japonês... ah, sei lá!:: ALGUMAS CURIOSIDADES
- Steven Spielberg, Brett Ratner, Spike Jonze e Kimberly Peirce foram alguns diretores que foram sondados para dirigir este filme. Spielberg acabou ficando apenas com a produção.
- Maggie Cheung, uma das atrizes de Herói, foi considerada para o papel de Mameha. Já pensou, rapaz? Nooooooossa, eu ia ficar louco... não que não tivesse ficado com a Michelle Yeoh, mas pô... é a Cheung!
- Levou muito tempo e muitas negociações para que Rob Marshall dirigisse este filme. Desde que ele dirigiu o grande sucesso "Chicago", ele havia negociado com a Miramax que iria dirigir um filme produzido por esta empresa. Porém, "Memórias de uma Gueixa" é da Dreamworks. Como sempre teve uma histórinha por trás dos bastidores de que uma produtora fica "roubando" talentos da outra é que desandava tudo.
- John Williams desistiu de compor a trilha sonora de Harry Potter e O Cálice de Fogo para vir trabalhar na trilha deste filme. E ele, na minha humilde opinião, fez muito bem, já que o que ele ia fazer no bruxinho seria, mais uma vez, uma variação de seu primeiro trabalho com a série de filme de Harry Potter. Claro que ele ia querer algo mais original depois de três filmes, não?
- Os riquixás (aquela carroça puxada por um homem, uma espécie de "táxi") são os mesmos que foram usados em "O Último Samurai". Porém, foram levemente modificados para se adequar melhor à época desta produção, que é posterior aos acontecimentos do épico com Tom Cruise.
- As atrizes passaram por um "curso-relâmpago" de um mês e meio de como se tornar uma gueixa.
Memórias de uma Gueixa (Título original: Memoirs of a Geisha) / Ano: 2005 / Direção: Rob Marshall / Roteiro: Robin Swicord / Inspirado no best-seller de mesmo nome escrito por Arthur Golden / Elenco: Zhang Ziyi, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Gong Li, Koji Yakusho / Duração: 145 minutos.
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Comentários Atuais:
Faria o texto com menos parêntesis. Quanto à estrutura do texto, creio que continua ótimo. Acredito que este é um texto do qual me orgulho e não precisa de alterações radicais.
Quanto a ter lido o livro Memórias de Uma Gueixa para fins de comparação, posso dizer que já o li, mas quero deixar comentários sobre o livro pra um futuro artigo onde dissecarei o livro e também farei finalmente a comparação com o filme.
V DE VINGANÇA: uma boa surpresa para os pessimistas
Publicado originalmente no site A ARCA no dia 10/03/2006.
Eu quero ser o V quando crescer! ^_^
Por Emílio "Elfo" Baraçal
"Uma visão descompromissada do futuro pelos criadores da trilogia Matrix"
Quando a frase acima apareceu nos pôsteres de V de Vingança, vários fãs do gibi ao redor do mundo ficaram simplesmente revoltados (que ironia) com a possibilidade de os irmãos Andy e Larry Wachowski simplesmente destruírem a adaptação para o cinema de uma das produções gráficas mais aclamadas do mundo. Ok, é impossível agradar gregos e troianos e isso com certeza não ocorrerá, mas aposto que uma coisa vai acontecer: você, se é fã de quadrinhos e em particular, da obra original, provavelmente vai ter uma positiva surpresa. É sabido que apesar do brilhantismo de Matrix, suas sequências, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, respectivamente, não são grande coisa e isso colocou em dúvida o talento dos dois. Dessa forma, aliada à frase de abertura desta crítica e mais outros variados fatores (como por exemplo, um estreante na direção, mas já falo disso mais adiante), as chances do filme ser uma bomba eram enormes. Eram.
Este que vos escreve não só é um grande fã da história criada originalmente por Alan Moore, como é a minha história favorita escrita por ele. Devido a isso, claro, fiquei muito, mas muito nervoso com o que iria ver. Inicialmente, algumas coisas não estavam me agradando, como a transposição de Evey, uma das personagens principais, para as telonas. Entretando, aos poucos, as coisas foram se encaixando e culminando em um filmaço, tanto para quem leu o gibi quanto para quem é marinheiro de primeira viagem. Inclusive, a técnica de narrativa do roteiro escrito pelos irmãos Wachowski me lembra e muito as técnicas usadas no inteligentíssimo Os Suspeitos. Sim, aquele mesmo que levou o Oscar de Melhor Roteiro Original uns anos atrás e deu um outro para Kevin Spacey de Melhor Ator Coadjuvante.
Bom, como as partes técnicas demandam muito espaço (que veremos depois), vamos à história: em um futuro não muito distante, guerras mudaram radicalmente o panorama político e geográfico mundial. Uma das nações mais afetadas foi a Inglaterra, imersa no caos. Porém, desse caos, um grupo aproveitou e aplicou um golpe de estado, conseguindo o poder. De forma quase subconsciente, esse grupo fez com que a população acreditasse que eles eram a solução. A paz e a ordem seriam trazidas, mas ao custo da liberdade em todos os sentidos. As formas de arte foram praticamente banidas (pois incitam à filosofia, pensamento crítico, enfim, ao questionamento), sendo divulgado só aquilo aprovado pelo governo. No meio desse cenário, surge um homem, conhecido apenas como "V" (o fantástico e macabro Hugo Weaving), que através de técnicas terroristas, começa a atacar os pilares desse sistema ditatorial e subversivo. Porém, em um desses ataques, ele é obrigado a trazer para seu esconderijo uma garota chamada Evey Hammond (a belíssima e quem sabe minha futura esposa - né, Zarko? - Natalie Portman), uma trabalhadora simples e sem grande futuro na vida. Todas as atitudes e ideologias de V acabam sendo questionados por ela, o que faz com que ele se revele uma pessoa única. Ao mesmo tempo em que é um assassino sanguinário, é um homem educado, letrado e galante. O governo, claro, precisa dar cabo dele ao mesmo tempo em que manipula a população na tentativa de minimizar os planos de V. E é durante as investigações que o passado e o plano de V vão sendo revelados até culminar em um clímax envolvente e empolgante.
O governo é opressão, é fascismo e ordem. V é anarquia, transformação e liberdade. Porém, é através de Evey, que nada mais é do que uma analogia da figura do povo em uma personagem que os questionamentos, as dúvidas e as incertezas (ou não) de até onde o ser humano pode ir para buscar sua liberdade, seja individual ou coletiva. "V de Vingança" não promete e nem dá todas as respostas, mas faz todas as perguntas pertinentes e por isso, dessa forma, é muito bem sucedido.
Por outro lado, deve-se agora analisar a coisa toda como adaptação. Em primeiro lugar, "V de Vingança" é uma obra complicada e o tempo disponível de filme são meras duas horas e quinze. Como toda adaptação, cortes foram feitos. Graças ao bom Deus, todas as cenas essênciais estão ali. Isso, quando não transposta de forma literal, ao menos bem adaptada, sem perder o seu significado. O que contribui bastante para isso na verdade não é o número de cenas cortadas, mas sim o fato de terem cortado ou mesclado vários personagens. No original, há uma personagem, Rose, que fica viúva. No filme, ela não dá nem as caras ou ao menos é citada. Em outras palavras, ela não existe na produção. Analisando isso, o longa não sofre do pecado da ultrafidelidade, que geralmente afunda várias adaptações (sim, Sin City é uma rara excessão onde a ultrafidelidade não só não atrapalha como deixa tudo mais perfeito). Outro ponto positivo do corte é que o roteiro pôde focar nas personagens propostas. V, por exemplo, é retratado muito mais como uma ideologia do que como um homem. Uma das razões de ele ser tão invencível é que você pode matar um homem, mas não um ideal. V representa verdade, resistência e individualismo. Entretanto, um passado misterioso, que o faz agir vingativamente, pode condenar seu idealismo político. Até mesmo Evey, que me incomodou no começo (não por culpa de Natalie, que está impecável, mas pelo modo como a personagem foi escrita) por ser bem diferente do original, vai se tornando aos poucos a mulher que todos os fãs da graphic novel curtem.
Outra nítida preocupação foi a ideia de ser um filme acessível a todos, leitores de quadrinhos ou não, sem fazer a história perder sua natureza e isso eles conseguem. Não há ação demais nem é parado demais. O suspense, os plots, tudo é bem dosado. Até o "dagger time" (em alusão ao efeito "bullet time" criado pelos irmãos Wachowski, mas adaptado para adagas) só é usado uma única vez, não sendo um "filhote de Matrix". Inclusive, uma ou outra solução em relação a algumas coisas ficaram melhores do que as ideias de Alan Moore. Sei que provavelmente vão me xingar por isso, mas enfim, se eu consegui enxergar isso, por que não outra pessoa?
Quanto às caracterizações, uma única coisa me preocupava em V: a voz de Hugo Weaving. Tendo sido imortalizado como o Agente Smith da trilogia Matrix, com sua voz característica e inconfundível, fiquei imaginando quando apareceria o momento em que ele diria algo como "É inevitável, Srta. Hammond". Mas não, não é isso que acontece. Quase não dá pra reconhecer a voz de Weaving, que, combinado com maneirismos e certos modos de se portar, dão um toque único a V, já que com a máscara não é possível ver nada de seu rosto, o que limita bastante a interpretação. Porém, Weaving é tão brilhante que nada disso atrapalhou, realizando um ótimo trabalho. V, ainda bem, foi muito bem escrito e interpretado. E não se preocupem, fãs, ele não tira a máscara! Já Evey, é um caso diferente.Natalie é uma ótima atriz. Claro, deslizes como Star Wars - Episódio III: A Vingança dos Sith existem e nem é culpa dela (maldito seja, George Lucas!), mas aqui houveram alguns probleminhas, que talvez estejam ligados a como a personagem foi escrita e a como o filme possa ter sido dirigido inicialmente. A Evey das telas é muito mais forte do que no gibi. No celulose, ela é mais frágil, mais nova, bem inocente e coisas assim. Aos poucos ela vai passando por mudanças que a tornam mais forte e a fazem enxergar os propósitos e ideias de V, culminando em uma transformação radical. Nas telas, Evey é mais forte, decidida e questionadora. Porém, conforme a película vai caminhando, ela vai se transformando na personagem dos quadrinhos, ao menos da metade para o final, na mesma forma, mantendo uma certa essência. A relação dela com V é 95% perfeita, ainda bem. Digo "95%" porque os roteiristas insistiram em colocar no final, um climazinho de romance entre ela e V, coisa que é inexistente no quadrinhos e completamente desnecessária. Bem, é como disse um amigo meu: "Todo mundo que leu a HQ ficaria muito revoltado... mas o espectador médio - essa divindade abstrata cultuada pelos grandes estúdios nos grandes templos da pesquisa qualitativa de opinião - adora esse tipo de lenga-lenga sentimentaloide..."
Outro personagem que está bem diferente é o inspetor-chefe Finch (através do ótimo Stephen Rea). Nos quadrinhos, ele passa de um cara até certo ponto tranquilo e com vida tediosa e rotineira para alguém que se vê preso na necessidade de pegar V, transformando-se em alguém ora paranoico, ora perseguidor e ora lunático. No longa, é alguém caçador, implacável, parecendo em alguns momentos com o personagem de Tommy Lee Jones em O Fugitivo, mas com mais profundidade. Já um personagem modificado que eu curti bastante foi o Líder (no caso do filme, renomeado como "Chanceler"). Nos quadrinhos, ele interage bastante com seus subordinados, variando entre o grosso e estúpido e o ponderado e estratégico. Já tanto a ideia para o personagem quanto o esquema de interpretação foram mudados. Na película, o Chanceler é muito mais autoritário, mal-educado, exigente e ditatorial, graças à performance do talentoso ator John Hurt. A ideia diferente para o papel foi o simples fato de mantê-lo numa tela de vídeo, agindo com seus subordinados como se estivessem em uma vídeo-conferência. Isso passou uma ótima impressão de que se tratava de alguém intocável, praticamente invulnerável. Lógico que, V mostra que não é bem por aí, hehehe...
A direção de "V de Vingança" ficou por conta do novato James McTeigue. Ele sempre trabalhou nos bastidores, como, por exemplo, sendo assistente de direção na trilogia Matrix. Para um estreante, que ainda por cima pega uma obra complexa pela frente, o cara realizou um ótimo trabalho. Inicialmente, eu senti que tudo estava ainda um pouco perdido, com alguns personagens (como a própria Evey) mal adaptados ou perdidos, mas rapidamente as coisas tomaram um rumo certo, criando o clima perfeito para a produção, que ainda bem, não ficou "pop" demais. Sua "pegada" impôs um ritmo bem cadenciado, sem ser algo só com ação sem cérebro ou meio "geração MTV". Claro que, como fã da obra, fico imaginando essa história na mão de alguém mais acostumado à essa cadeira tão importante, como David Fincher (diretor de pérolas como Clube da Luta), por exemplo. Não só eu, como meu amigo Zarko teria surtos, claro.Em suma, é um ótimo filme no geral, que poderia ter se aprofundado ainda mais nas questões políticas, mas que trouxe isso na medida necessária para não ficar chato ou tedioso demais e em prol dos que não lêem quadrinhos. As questões foram levantadas, algumas respondidas, outras ficam por sua conta. E lembre-se, meu caro, lembre-se do cinco de novembro...
V de Vingança (Título Original: V for Vendetta) / Ano: 2005 / Produção: EUA-Alemanha / Direção: James McTeigue / Roteiro: Andy & Larry Wachowski / Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry, John Hurt / Duração: 132 minutos
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Comentários atuais:
Minha opinião sobre o filme pouco mudou. Uma coisa aqui, outra acolá, mas continuo gostando bastante da adaptação. Ainda tenho dúvidas quanto ao final.
Quanto à estrutura de minha crítica, provavelmente faria algo mais conciso e com frases menores, mas sem deixar de lado os argumentos explorados.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
AS MELHORES HQS DE 2010
Sei que comecei este blog como um portfólio de redação, publicando aos poucos minhas velhas matérias e críticas outrora publicadas no saudoso e extinto site A ARCA. Porém, pensando cá com o Tico e o Teco, resolvi intercalar com textos atuais. Assim mantém o caráter de portfólio e não fico publicando apenas textos antigos.
Pra começar, eis que estou aqui para o MELHORES HQS DE 2010, por este que vos escreve.
O Melhores HQs de 2010 é um apanhado daquilo que acho que vale o seu suado tutu mensal e que proporcionará um épico prazer de leitura. Preferi não escrever sinopses pra não estragar a surpresa para o leitor. Na minha humilde opinião, às vezes, mesmo sinopses bem feitas, livres de spoilers, tiram a sensação de surpresa. Sem enrolação, aí vão os meus:
10 - O QUE ACONTECEU AO HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO? - Gal Editora
Tendo um acabamento primoroso, essa HQ inglesa editada aqui pela Gal Editora é um achado. É uma história de super-heróis e o título pode confundir os mais desavisados, achando que trata-se de algo relacionado ao Flash, mas ao botar os olhos na capa, já vemos que não é nada disso. Com aspecto de jornal, a capa já é diferente de tudo que você vê por aí nas outras HQs. O roteiro é direto e sucinto, sem enrolações e ainda por cima é um brilho de criatividade na mesmice das HQs da turminha de colante - embora o protagonista, graças ao bom Deus, não usa tal artifício neste caso - sendo cativante, emocionante e dando um nó na garganta de qualquer um.
Roteiro: Dave West
Arte: Marleen Lowe
64 páginas
R$ 22,00
http://www.galeditora.com.br/Livros/O-Que-Aconteceu-ao-Homem-Mais-Rapido-do-Mundo/Descricao.html
9 - VERTIGO MENSAL - Panini Comics
Uma das melhores HQs mensais publicadas hoje, ficando fácil fácil em um top 3 entre tais. Sua variedade de títulos e gêneros é um brinde a todos os gostos, indo do fantasioso absurdo de Lugar Nenhum, passando pela histórica Viking e indo até as bizarrices de Casa dos Mistérios, a sinistra Escalpo e tendo como carro-chefe ninguém menos que Hellblazer, Vertigo é algo de encher os olhos. E a linha acaba de ficar ainda melhor com a publicação de Vampiro Americano, de Stephen King, Scott Snyder e Rafael Albuquerque. É bonito ver também a dedicação de Fabiano Denardin, editor da linha, com tal publicação, mantendo vários extras bacanudos no blog da revista, fazendo uma interação bem legal entre a revista e os leitores. Se não comprou uma até agora, é um pecado enorme.
Roteiro: Vários
Arte: Vários
132 páginas
R$ 9,90
http://web.hotsitepanini.com.br/vertigo/
8 - NAMOR - AS PROFUNDEZAS - Panini Comics
Uma história do Namor onde ele quase não aparece. Quase não fala. E mesmo assim, um clássico absoluto da nona arte. Esse encadernado de luxo é simplesmente a melhor história do personagem desde sua criação. Tendo um clima que lembra muito o filme O Predador - mas com o príncipe atlante no lugar do alienígena - é uma história de suspense absurda, onde qualquer um que coloca os olhos passa de página para a página numa velocidade impressionante. E olha que eu não gosto do conjunto da obra do roteirista Peter Miligan. Quem dera ele escrevesse sempre assim. A arte belíssima de Esad Ribic entrega a melhor interpretação visual desse lendário personagem. Essa HQ é tão impactante que dá pena da Marvel não seguir essa abordagem para o personagem em seu universo. Chega a ser quase um filme pronto para Hollywood adaptar.
Roteiro: Peter Miligan
Arte: Esad Ribic
132 páginas
R$ 22,90
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/productDetail?viewItem=633897
7 - FRACASSO DE PÚBLICO: DESENCONTRO DE TITÃS - Gal Editora
A Gal Editora, empresa nova no ramo de quadrinhos, emplaca sua segunda publicação entre os melhores do ano, comprovando o gosto apurado e o cuidado superprofissional do editor Maurício Muniz. Essa HQ é continuação da Fracasso de Público - Heróis Mascarados e Amigos Encrencados. Ok, você precisa ler a anterior para pegar o que acontece nesta, mas para quem leu a primeira, que já é ótima, esbalda-se com o conteúdo da continuação, levando os personagens a lugares e situações que são puramente imprevisíveis. Os personagens são tão carismáticos e reais que fica difícil escolher um preferido. Se fosse descrever esse ótimo trabalho de Alex Robinson seria dizer que ele é o equivalente nos quadrinhos da clássica sitcom Seinfeld, sendo mais uma maravilhosa história sobre o nada. E mesmo sendo sobre o nada, é brilhante.
Roteiro: Alex Robinson
Arte: Alex Robinson
192 páginas
R$ 36,00
http://www.galeditora.com.br/Livros/Fracasso-de-Publico-Desencontro-de-Titas/Descricao.html
6 - XAMPU - LOVELY LOSERS - Devir Livraria
Ok, atualmente Roger Cruz tem pouco apreço pelas HQs de super-heróis e é uma pena. Seu talento na arte é maravilhoso e ficaria ainda melhor fazendo alguma coisa heróica para o mercado brasileiro, já que o americano perdeu o brilho pra ele. Mas isso nos traz uma consequência sensacional, que é esta HQ genial, que revela não só um artista em seu mais alto grau de sensibilidade, mas também um primoroso roteirista. Por mim, Roger revezaria entre HQs autorais como essa e HQs de heróis nacionais - sim, eu acredito e apóio. Falando nisso, esse é o primeiro álbum de uma série de três, então prepare-se para mais coisas maravilhosas criadas por ele. A HQ já é maravilhosa para qualquer leitor e fica ainda melhor se você é como eu, que teve a infância nos anos 80 e melhor ainda pra quem teve a adolescência nessa época. Acerto fenomenal de Roger, da Devir e uma pérola para o quadrinho nacional.
Roteiro: Roger Cruz
Arte: Roger Cruz
80 páginas
R$ 29,50
http://www.devir.com.br/hqs/xampu_v01.php
5 - KICK-ASS - QUEBRANDO TUDO - Panini Comics
Ok, o preço é salgado, mas convenhamos: é uma das histórias mais bizarramente hilárias que apareceram nos últimos anos. Ver as peripécias de Dave Lizewski ao tentar ser um super-herói da vida real é algo indescritível de engraçado e triste ao mesmo tempo. E acompanhar as conversas com seus companheiros de escola é quase como voltar no tempo para qualquer leitor de quadrinhos. Vai dizer que você não tinha conversas semelhantes com seus amigos leitores? Essa HQ tem tantas camadas críticas e humorísticas que fica difícil dar destaque para alguma coisa. E como cereja do bolo, nada melhor do que a estupenda arte do veterano John Romita Jr. Kick-Ass é simplesmente obrigatório na estante de todo leitor que se preze.
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita Jr.
212 páginas
R$ 60,00
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/productDetail?viewItem=635074
4 - HOMEM-ARANHA DA LINHA ULTIMATE - Panini Comics
Bom, coloquei o título assim porque nesse ano, a revista mudou de nome. De Marvel Millennium: Homem-Aranha, passou para Ultimate Marvel e também é a única HQ da linha que se mantém com regularidade na questão da qualidade. O que importa é uma coisa só: Homem-Aranha. Ok, tivemos atrocidades como a "saga" Ultimatum e altos e baixos constantes das outras histórias do Ultiverso, mas a versão século XXI do amigão da vizinhança vale cada centavo e é uma raridade entre as histórias de super-heróis atualmente. Embora de início seja esquisito ver a arte de David Lafuente, que entrou no lugar do sensacional Stuart Immonen, não estraga em nada os roteiros primorosos de Brian Michael Bendis. Essa versão do aracnídeo é tudo que ele sempre deveria ser e ainda arrisco dizer que a Marvel poderia apagar o Aranha tradicional - já que ela tem mania de apagar tudo, como casamentos, por exemplo - e deixar esse Aranha como o do universo tradicional.
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: David Lafuente
76 páginas (Mas fique só com as 22 de Homem-Aranha. Vingadores Ultimate tá legal também, mas o resto é dispensável)
R$ 6,50
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/titulos_detail?category_id=131747
3 - MONDO URBANO - Devir Livraria
Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco deviam entrar no hall dos deuses das HQs depois dessa obra. Ok, ok, ela já tinha sido publicada em partes anteriormente, mas agora é o lance pra valer. Tudo juntinho, num álbum só, bonitinho para sua estante. Sexo, drogas e rock é uma combinação explosiva para narrativas e os três fazem um belo uso desse controverso estilo de vida como ferramenta para mais uma obra sem precedentes na arte sequencial. Tem identidade e linguagem próprias, enquadramentos muito bem escolhidos e um clima sensacional. Cada quadrinho fala por si, sem um único espaço disperdiçado tanto no roteiro quanto na arte. É uma história de cunho universal e a prova disso é que também foi muito bem elogiada no mercado americano. É uma verdadeira aula de quadrinhos. Leia e aprenda.
Roteiro e Arte: Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco
128 páginas
R$ 25,00
http://www.devir.com.br/hqs/mondo-urbano_v001.php
2 - Arco SUPERMAN: ORIGEM SECRETA (revista Superman nº 90 a 95) - Panini Comics
Quem disse que nunca mais teríamos nada de Christopher Reeve como Superman? Graças a esse arco, por mim, Geoff Johns e Gary Frank ficariam eternamente nas histórias do azulão. Eles já tinham feito arcos maravilhosos do personagem antes de atualizar a origem do maior e mais famoso dos super-heróis, mas é essa história que me fez soltar lágrimas. Me vi novamente com seis anos de idade, como se tivesse vendo novamente a Superman - O Filme, mas com camadas adicionais proporcionadas pela dupla. Em uma época em que cada vez mais eu quero me sentir criança novamente lendo quadrinhos, essa é uma obra que acertou em cheio e revitaliza o motivo de porque adotei essa mídia como aquela que ficará pra sempre em meu coração. Ok, é mais uma origem do Superman, a cada semana a DC inventa uma nova versão e embora a de John Byrne continue minha preferida, esta aqui é uma jóia no meio do trem desgovernado que rege os roteiristas atuais do mercado.
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank
76 páginas
R$ 6,50
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/titulos_detail?category_id=118902
1 - BANDO DE DOIS - Zarabatana Books
Sim, em primeiríssimo lugar, uma obra nacional. Tudo que Danilo Beyruth aprendeu fazendo quadrinhos na marra com seu já sensacional Necronauta, ele faz melhor aqui. Sua narrativa está afiadíssima, seu traço com o pincel é inigualável e seus talentos roteirísticos estão se aprimorando cada vez mais. Beyruth é um verdadeiro Eisner tupiniquim e esse álbum é o início de um status desse, sem exagero. Agora a cada vez que ele anunciar seu próximo trabalho, ficarei babando durante a espera e sugiro que você leitor, fique igualmente atento. Estamos diante de um talento singular nas HQs nacionais. Em meio a isso tudo, Bando de Dois tem defeitos? Tem. Acabei muito rápido e senti falta de um desenvolvimento maior durante a busca dos protagonistas, podendo estender ainda mais os perigos, mas ainda assim não deixa de ser sensacional. O fato é que esse faroeste no Brasil prova que só temos que ter olhares precisos e coerentes para as características passadas e presente - e por que não, brincar com prováveis futuros? - de nosso país ao tentar criar algo que se passa aqui. Clássico absoluto e imortal. Parabéns, Danilo!
Roteiro: Danilo Beyruth
Arte: Danilo Beyruth
96 páginas
R$ 36,00
http://www.zarabatana.com.br/p12.htm
Pra começar, eis que estou aqui para o MELHORES HQS DE 2010, por este que vos escreve.
O Melhores HQs de 2010 é um apanhado daquilo que acho que vale o seu suado tutu mensal e que proporcionará um épico prazer de leitura. Preferi não escrever sinopses pra não estragar a surpresa para o leitor. Na minha humilde opinião, às vezes, mesmo sinopses bem feitas, livres de spoilers, tiram a sensação de surpresa. Sem enrolação, aí vão os meus:
10 - O QUE ACONTECEU AO HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO? - Gal Editora
Tendo um acabamento primoroso, essa HQ inglesa editada aqui pela Gal Editora é um achado. É uma história de super-heróis e o título pode confundir os mais desavisados, achando que trata-se de algo relacionado ao Flash, mas ao botar os olhos na capa, já vemos que não é nada disso. Com aspecto de jornal, a capa já é diferente de tudo que você vê por aí nas outras HQs. O roteiro é direto e sucinto, sem enrolações e ainda por cima é um brilho de criatividade na mesmice das HQs da turminha de colante - embora o protagonista, graças ao bom Deus, não usa tal artifício neste caso - sendo cativante, emocionante e dando um nó na garganta de qualquer um.
Roteiro: Dave West
Arte: Marleen Lowe
64 páginas
R$ 22,00
http://www.galeditora.com.br/Livros/O-Que-Aconteceu-ao-Homem-Mais-Rapido-do-Mundo/Descricao.html
9 - VERTIGO MENSAL - Panini Comics
Uma das melhores HQs mensais publicadas hoje, ficando fácil fácil em um top 3 entre tais. Sua variedade de títulos e gêneros é um brinde a todos os gostos, indo do fantasioso absurdo de Lugar Nenhum, passando pela histórica Viking e indo até as bizarrices de Casa dos Mistérios, a sinistra Escalpo e tendo como carro-chefe ninguém menos que Hellblazer, Vertigo é algo de encher os olhos. E a linha acaba de ficar ainda melhor com a publicação de Vampiro Americano, de Stephen King, Scott Snyder e Rafael Albuquerque. É bonito ver também a dedicação de Fabiano Denardin, editor da linha, com tal publicação, mantendo vários extras bacanudos no blog da revista, fazendo uma interação bem legal entre a revista e os leitores. Se não comprou uma até agora, é um pecado enorme.
Roteiro: Vários
Arte: Vários
132 páginas
R$ 9,90
http://web.hotsitepanini.com.br/vertigo/
8 - NAMOR - AS PROFUNDEZAS - Panini Comics
Uma história do Namor onde ele quase não aparece. Quase não fala. E mesmo assim, um clássico absoluto da nona arte. Esse encadernado de luxo é simplesmente a melhor história do personagem desde sua criação. Tendo um clima que lembra muito o filme O Predador - mas com o príncipe atlante no lugar do alienígena - é uma história de suspense absurda, onde qualquer um que coloca os olhos passa de página para a página numa velocidade impressionante. E olha que eu não gosto do conjunto da obra do roteirista Peter Miligan. Quem dera ele escrevesse sempre assim. A arte belíssima de Esad Ribic entrega a melhor interpretação visual desse lendário personagem. Essa HQ é tão impactante que dá pena da Marvel não seguir essa abordagem para o personagem em seu universo. Chega a ser quase um filme pronto para Hollywood adaptar.
Roteiro: Peter Miligan
Arte: Esad Ribic
132 páginas
R$ 22,90
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/productDetail?viewItem=633897
7 - FRACASSO DE PÚBLICO: DESENCONTRO DE TITÃS - Gal Editora
A Gal Editora, empresa nova no ramo de quadrinhos, emplaca sua segunda publicação entre os melhores do ano, comprovando o gosto apurado e o cuidado superprofissional do editor Maurício Muniz. Essa HQ é continuação da Fracasso de Público - Heróis Mascarados e Amigos Encrencados. Ok, você precisa ler a anterior para pegar o que acontece nesta, mas para quem leu a primeira, que já é ótima, esbalda-se com o conteúdo da continuação, levando os personagens a lugares e situações que são puramente imprevisíveis. Os personagens são tão carismáticos e reais que fica difícil escolher um preferido. Se fosse descrever esse ótimo trabalho de Alex Robinson seria dizer que ele é o equivalente nos quadrinhos da clássica sitcom Seinfeld, sendo mais uma maravilhosa história sobre o nada. E mesmo sendo sobre o nada, é brilhante.
Roteiro: Alex Robinson
Arte: Alex Robinson
192 páginas
R$ 36,00
http://www.galeditora.com.br/Livros/Fracasso-de-Publico-Desencontro-de-Titas/Descricao.html
6 - XAMPU - LOVELY LOSERS - Devir Livraria
Ok, atualmente Roger Cruz tem pouco apreço pelas HQs de super-heróis e é uma pena. Seu talento na arte é maravilhoso e ficaria ainda melhor fazendo alguma coisa heróica para o mercado brasileiro, já que o americano perdeu o brilho pra ele. Mas isso nos traz uma consequência sensacional, que é esta HQ genial, que revela não só um artista em seu mais alto grau de sensibilidade, mas também um primoroso roteirista. Por mim, Roger revezaria entre HQs autorais como essa e HQs de heróis nacionais - sim, eu acredito e apóio. Falando nisso, esse é o primeiro álbum de uma série de três, então prepare-se para mais coisas maravilhosas criadas por ele. A HQ já é maravilhosa para qualquer leitor e fica ainda melhor se você é como eu, que teve a infância nos anos 80 e melhor ainda pra quem teve a adolescência nessa época. Acerto fenomenal de Roger, da Devir e uma pérola para o quadrinho nacional.
Roteiro: Roger Cruz
Arte: Roger Cruz
80 páginas
R$ 29,50
http://www.devir.com.br/hqs/xampu_v01.php
5 - KICK-ASS - QUEBRANDO TUDO - Panini Comics
Ok, o preço é salgado, mas convenhamos: é uma das histórias mais bizarramente hilárias que apareceram nos últimos anos. Ver as peripécias de Dave Lizewski ao tentar ser um super-herói da vida real é algo indescritível de engraçado e triste ao mesmo tempo. E acompanhar as conversas com seus companheiros de escola é quase como voltar no tempo para qualquer leitor de quadrinhos. Vai dizer que você não tinha conversas semelhantes com seus amigos leitores? Essa HQ tem tantas camadas críticas e humorísticas que fica difícil dar destaque para alguma coisa. E como cereja do bolo, nada melhor do que a estupenda arte do veterano John Romita Jr. Kick-Ass é simplesmente obrigatório na estante de todo leitor que se preze.
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita Jr.
212 páginas
R$ 60,00
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/productDetail?viewItem=635074
4 - HOMEM-ARANHA DA LINHA ULTIMATE - Panini Comics
Bom, coloquei o título assim porque nesse ano, a revista mudou de nome. De Marvel Millennium: Homem-Aranha, passou para Ultimate Marvel e também é a única HQ da linha que se mantém com regularidade na questão da qualidade. O que importa é uma coisa só: Homem-Aranha. Ok, tivemos atrocidades como a "saga" Ultimatum e altos e baixos constantes das outras histórias do Ultiverso, mas a versão século XXI do amigão da vizinhança vale cada centavo e é uma raridade entre as histórias de super-heróis atualmente. Embora de início seja esquisito ver a arte de David Lafuente, que entrou no lugar do sensacional Stuart Immonen, não estraga em nada os roteiros primorosos de Brian Michael Bendis. Essa versão do aracnídeo é tudo que ele sempre deveria ser e ainda arrisco dizer que a Marvel poderia apagar o Aranha tradicional - já que ela tem mania de apagar tudo, como casamentos, por exemplo - e deixar esse Aranha como o do universo tradicional.
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: David Lafuente
76 páginas (Mas fique só com as 22 de Homem-Aranha. Vingadores Ultimate tá legal também, mas o resto é dispensável)
R$ 6,50
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/titulos_detail?category_id=131747
3 - MONDO URBANO - Devir Livraria
Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco deviam entrar no hall dos deuses das HQs depois dessa obra. Ok, ok, ela já tinha sido publicada em partes anteriormente, mas agora é o lance pra valer. Tudo juntinho, num álbum só, bonitinho para sua estante. Sexo, drogas e rock é uma combinação explosiva para narrativas e os três fazem um belo uso desse controverso estilo de vida como ferramenta para mais uma obra sem precedentes na arte sequencial. Tem identidade e linguagem próprias, enquadramentos muito bem escolhidos e um clima sensacional. Cada quadrinho fala por si, sem um único espaço disperdiçado tanto no roteiro quanto na arte. É uma história de cunho universal e a prova disso é que também foi muito bem elogiada no mercado americano. É uma verdadeira aula de quadrinhos. Leia e aprenda.
Roteiro e Arte: Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco
128 páginas
R$ 25,00
http://www.devir.com.br/hqs/mondo-urbano_v001.php
2 - Arco SUPERMAN: ORIGEM SECRETA (revista Superman nº 90 a 95) - Panini Comics
Quem disse que nunca mais teríamos nada de Christopher Reeve como Superman? Graças a esse arco, por mim, Geoff Johns e Gary Frank ficariam eternamente nas histórias do azulão. Eles já tinham feito arcos maravilhosos do personagem antes de atualizar a origem do maior e mais famoso dos super-heróis, mas é essa história que me fez soltar lágrimas. Me vi novamente com seis anos de idade, como se tivesse vendo novamente a Superman - O Filme, mas com camadas adicionais proporcionadas pela dupla. Em uma época em que cada vez mais eu quero me sentir criança novamente lendo quadrinhos, essa é uma obra que acertou em cheio e revitaliza o motivo de porque adotei essa mídia como aquela que ficará pra sempre em meu coração. Ok, é mais uma origem do Superman, a cada semana a DC inventa uma nova versão e embora a de John Byrne continue minha preferida, esta aqui é uma jóia no meio do trem desgovernado que rege os roteiristas atuais do mercado.
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank
76 páginas
R$ 6,50
http://www.paninicomics.com.br/web/guest/titulos_detail?category_id=118902
1 - BANDO DE DOIS - Zarabatana Books
Sim, em primeiríssimo lugar, uma obra nacional. Tudo que Danilo Beyruth aprendeu fazendo quadrinhos na marra com seu já sensacional Necronauta, ele faz melhor aqui. Sua narrativa está afiadíssima, seu traço com o pincel é inigualável e seus talentos roteirísticos estão se aprimorando cada vez mais. Beyruth é um verdadeiro Eisner tupiniquim e esse álbum é o início de um status desse, sem exagero. Agora a cada vez que ele anunciar seu próximo trabalho, ficarei babando durante a espera e sugiro que você leitor, fique igualmente atento. Estamos diante de um talento singular nas HQs nacionais. Em meio a isso tudo, Bando de Dois tem defeitos? Tem. Acabei muito rápido e senti falta de um desenvolvimento maior durante a busca dos protagonistas, podendo estender ainda mais os perigos, mas ainda assim não deixa de ser sensacional. O fato é que esse faroeste no Brasil prova que só temos que ter olhares precisos e coerentes para as características passadas e presente - e por que não, brincar com prováveis futuros? - de nosso país ao tentar criar algo que se passa aqui. Clássico absoluto e imortal. Parabéns, Danilo!
Roteiro: Danilo Beyruth
Arte: Danilo Beyruth
96 páginas
R$ 36,00
http://www.zarabatana.com.br/p12.htm
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
SUPERMAN RETURNS: PORQUE EU GOSTO DO SUPERMAN
Publicado originalmente no site A ARCA no dia 30/06/2006
E abaixo aos personagens babacas.
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Sim, estou aqui para contar o porque eu gosto tanto do Superman. Sei que tem muita gente por aí que detesta o azulão (e na maioria, por razões bizarras). Sei que serei apedrejado, mas sabe como é, não dá pra agradar gregos e troianos e além do mais... não estou nem aí para os argumentos contra o personagem. Muita coisa boa se fez com ele, assim como muita coisa ruim também, concordo. Só que vou analisar o personagem ali, no âmago, na essência.
Dentes cirrados, sangue, testosterona e porrada.
Tem muita gente por aí que gosta de personagens violentos, tipo Wolverine, Venom e mais meia-dúzia de caras sem cérebro. E se você leu o texto do El Cid sobre o Ciclope contra Wolverine, sabe do que estou falando. E concordo em gênero, número e grau com ele. Personagens tridimensionais são muito mais legais do que um anabolizado com músculo até na orelha e com a profundidade de um pires. É o caso do Superman, um personagem muito humano. Ah, e antes que eu me esqueça, eu gosto do Wolverine. Mas só quando ele é bem escrito. Mas ainda assim eu prefiro o Ciclope. E odeio o Venom. :P
O Superman é diferente. E o fato de ele ser tão legal já começa por aí.
Bom, em primeiro lugar, o Super é um alienígena. Só que ele foi criado na Terra. Basicamente, segundo a origem de John Byrne , ele nasceu no nosso planetinha, pois a câmara da nave que o trouxe de Krypton era uma espécie de bolsa d'água artificial. E todos sabem que alguém só nasce quando a bolsa d'água de uma mulher rompe e o bebê, em seguida, sai do ventre da mãe imediatamente (com uma ajudinha de um médico e meia-dúzia de enfermeiras). Mas ainda assim, não muda o fato de que ele é diferente e ponto. Só pra se ter uma idéia de como isso pode ser aterrador ou estranho, pense da seguinte forma: você vai morar em outro país, sei lá... tipo o Uzbequistão ou Romênia. Ou até mesmo Sri Lanka. Você vai trabalhar e estudar em um lugar completamente desconhecido e com uma cultura completamente diferentes para você. Você é um estranho no ninho. Não tem amigos, não tem parentes, não tem ninguém que possa te ajudar se der algum pepino. E mesmo assim, um exemplo como esse não reflete em igual proporção o problema do Super, pois por mais bizarro e longe que seja o país para o qual você vai, você ainda está lidando com seres humanos. Pessoas intrinsecamente iguais a você. E o Super está sozinho num mundo que não é o dele. E ponto. E isso pode ser assustador.
Porém, ele teve a sorte de vir ainda na condição de "feto" para a Terra. Ele foi criado e cresceu aqui. Dessa forma, sempre surgiu um paradoxo extremo na cabeça de escritores e fãs sobre o que o Super é realmente. Ele é humano? É alienígena? O que ele realmente é? O personagem possui valores terrestres, criação terrestre, experiência de vida terrestre. E tem uma "armadura", uma "casca" alienígena. Muitos roteiristas e fãs acham que o "verdadeiro eu" do Super é o Kal-El, ou seja ele é um alienígena vivendo no meio de nós, pobres mortais, sempre sozinho por ser diferente. E não está errado. Porém, a visão paradoxalmente inversa é também válida. Ok, ele pode ser um alienígena, mas o coração e a alma dele são humanos. Sendo assim, para outros, Clark Kent é na verdade o "verdadeiro eu" do Super.
E o mais interessante é que o personagem pode ser trabalhado das duas formas. Porém, isso pode criar uma confusão enorme, uma crise de identidade não só para o personagem, mas para quem escreve. Um roteirista pode gostar mais de uma determinada visão. Aí, o cara sai do título e entra outro roteirista em seu lugar com a visão completamente invertida. Com outra idéia. Aí, danou-se. O que é o personagem então? Uma incógnita. Se trabalhado da forma correta, pode gerar histórias muuuuuito interessantes em sua busca por uma identidade. Eu prefiro pensar que o "verdadeiro eu" do Super é o Clark Kent. Lembrem-se: por mais diferente que ele seja, ele cresceu e foi criado como Clark, mesmo com todas as neuras que ele tinha sobre suas capacidades especiais. Ele mesmo só foi descobrir que era alienígena aos 18 anos de idade. Ele só abraçou a idéia de ser um super-herói quando teve que proteger seu "eu verdadeiro" (tá vendo?), pois já tinha revelado sua existência ao mundo. A identidade é o sossego do personagem. Ele quer privacidade? Veste-se como Clark, que é o que ele é. Quer isolamento total? Ora, bolas, ele pode voar para as montanhas do Himalaia a hora que quiser.
Acrescentando, a maioria dos nerds, na época do colégio, sofreu ao menos um pouco por ser diferente, por ser o esquisito. Por ser aquele cara que ninguém entende. Não tem como não se conectar a essa característica do azulão. Lembrem-se: ele é diferente porque é "o último filho de Krypton". Nós, nerds, ainda temos outros nerds por aí. Além do mais, o fato de ele ser o único de sua raça é a razão de me fazer detestar a Supermoça, o Superboy, o Supercão, o Supercavalo, o Superpikachu e por aí vai...
O caráter é tudo.
Ok, agora, explicando melhor o esquema de personagens babões e violentos contra personagens carismáticos e tridimensionais, vamos à personalidade do Super. Geralmente escuto coisas como: "Uau! o Wolverine é mau! Olha só como ele estraçalhou com fulano de tal..." ou "Venom pega um, pega geral! Ele atropela qualquer um em dois tempos!" - oh yeah, com certeza... será? Vejo por aí um sem número de fãs de personagens violentos, com suas armas exóticas, suas metrancas cuspidoras de chumbo, seus poderes direcionados para a carnificina e como eles fariam o personagem preferido de qualquer um comer grama. Violência é o que pega, não? Errado... ao menos, pra mim. Algumas bocas dizem: "Ah, o Super é babaca! Ele é bonzinho demais!" ou "Não existe alguém tão certinho!". Ok, pode parar. Então ser violento, ofender os outros, pagar uma de malandro e coisas do gênero é o mais legal então? Eu não acho. Pois vou dizer uma coisa: se todos fossem como o Super em seu caráter, o mundo seria muito melhor. E não, não é babaquice isso que eu acabei de escrever. O aclamado e reconhecido pintor Alex Ross (sim, o mesmo de O Reino do Amanhã e Marvels) já confessou que usa o modelo de moral e bom senso do Super e que isso fez da vida dele muito melhor. E que ainda por cima ele reconhece isso. Quando li isso numa entrevista dele, pensei: "Uau, não sou o único!".
O Super prefere conversar primeiro e depois, em último caso, partir para a briga. Pensando realisticamente, se você é uma pessoa que gosta de bater primeiro e perguntar depois (e logo em seguida, continuar batendo), vai arranjar muita confusão na sua vida. Se eu tenho um problema com alguém, prefiro esgotar todas as possibilidades de conversa. Todas mesmo. E sempre pensando também em me colocar no lugar da pessoa com a qual estou conversando. Aí você me pergunta: "Ah, então caso todas as possibilidades pacíficas se esgotem, você parte pra porrada?" - olha, depende da situação, depende da pessoa, depende muito de váááários fatores.
Partindo para outra vertente, o Super é gentil e educado. E sem ser baitola. Não é uma coisa maravilhosa quando você, independente de quem seja, encontra com alguém que é gentil, atencioso e bem-educado, sendo homem ou mulher? Ou você prefere pessoas mal-humoradas, que furam fila do banco sem mais nem menos, te empurram pra abrir passagem para algum lugar sem ao menos pedir desculpas (e às vezes, de propósito)? Desculpe, mas eu prefiro alguém que me dê um sorriso altamente bonito e confiável no dia-a-dia. É muito mais humano. Além do mais, o aspecto bondoso do Super pode gerar histórias altamente emocionantes, de tocar o coração do mais pedregoso dos sujeitos. É só saber como fazer.
E pra quem acha que "Ah, isso tudo é babaquice", aqui vai mais uma: o caráter bondoso e o comportamente gentil do Super é o maior exemplo da melhor pessoa que podemos tentar ser a cada dia que passa. E não me venha com a já citada frase "Ah, não existe alguém tão certinho, tão bonzinho!", porque só não existe porque você não quer e porque não consegue enxergar isso nos outros. Por que... você não tenta ser alguém assim? Garanto que as pessoas irão te tratar com outros olhos, as pessoas vão querer sua companhia sempre, pois será agradável ter você ao lado delas. O Super é por dentro tudo o que a maioria das pessoas têm medo de ser ou não querem tentar ser. Se acha que isso não funciona, tente fazer as clássicas ações de levantar para os mais velhos sentarem dentro do ônibus, pegar o dinheiro que caiu do bolso de alguém e devolver ou parar de dormir até tarde e lavar o quintal da sua casa que tá cheio de cocô de cachorro pra que sua mãe não tenha tanto trabalho em casa. Apenas experimente fazer isso. Tudo isso tem nome: respeito. E todos gostam de ser respeitados, certo? É apenas o que o Super faz. Ele respeita os outros. Ele tem consideração pelos outros.
Agora, se ele é tão bonzinho, roteiristicamente falando, o fato de ele ser tão bonzinho torna-o perfeito para criar armadilhas e dilemas morais, tornando-se, olha só, quem diria, um... defeito? Quem costuma jogar de paladino em D&D sabe do que estou falando...
Os poderes. Ah, os poderes...
Alguns dizem que personagens superpoderosos não tem graça. São poderosos demais e tornam as histórias chatas. Concordo e discordo ao mesmo tempo. Ele é tão poderoso, mas tão poderoso que torna-se um verdadeiro desafio para qualquer roteirista escrever boas histórias com ele. E aí é que tá a graça. Se você é bom contando história, vai conseguir criar grandes desafios pra ele sem ser exagerado. O maior exemplo disso são as histórias no estilo "todos-esses-poderes-e-não-pude-fazer-nada-por-tal-pessoa-ou-com-tal-problema". O maior problema do azulão com seus poderes não reside exatamente em seus poderes e sim em seus vilões. Olha a galeria de vilões do Batman... ou a do Homem-Aranha. É muito mais legal do que os vilões mequetrefes que o kryptoniano costuma enfrentar.
Pensando assim, sou a favor de uma renovação da galeria de vilões do personagem. Manter só os legais, os que prestam mesmo: Lex Luthor, Darkside, Mongul, Brainiac, Metallo e Parasita . Reformula o Apocalypse (ainda tem salvação). Acaba de vez com o Bizarro, a Encantadora, o Dominus, Superciborgue, o Mxyzptlk e o Imperiex. E crie vilões que sejam diametralmente opostos às maiores características do Super. E que tenham contexto e façam sentido, por favor. Se eu tivesse a oportunidade de ser roteirista do personagem, iria alternar os vilões. Em um arco de histórias, seria um vilão clássico. E no arco de histórias seguinte, um vilão novo. E depois, no próximo, um outro vilão clássico. E seguindo a ordem, um outro vilão novo. E por aí vai. Eu iria reconstruir a galeria de vilões do cara. Mesmo. Se não tem ameaça, que graça tem o personagem? Os vilões, às vezes, são mais legais que os heróis e são eles que definem o herói.
E sim, gosto também de heróis sem poderes. Do mesmo jeito. Nada contra o Batman e outros do gênero, muito pelo contrário, adoro o personagem, ainda mais sendo "dcnauta de carteirinha".
Resumindo, o Super tem uma personalidade e caráter bem construídos, que funcionam também como defeitos, se bem explorado. E ele é diferente e ao mesmo tempo, iguais a nós. E ele é o cara que você pode nunca tê-lo visto na vida, mas a partir do momento que você olha nos olhos dele e ele diz um "Tudo bem, você está a salvo!" com um sorriso seguro, não tem como não confiar nele. Se duvida, é só ver os filmes dele. O Christopher Reeve captou essa característica de forma perfeita. O Homem-Aranha é humano, mas o Super não fica atrás, mesmo sendo praticamente um deus porque é algo que está dentro dele, vem de seu berço, da criação que teve com o Kents. E não, não coloquei essa última frase pra provocar o seu El Cid. Eu adoro o Aranha também.
E se depois de tudo isso, você achar que estou viajando veja esse post de uma comunidade do personagem no Orkut. Mais claro, impossível. Para o alto e avante.
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=56217&tid=11349613
E abaixo aos personagens babacas.
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Sim, estou aqui para contar o porque eu gosto tanto do Superman. Sei que tem muita gente por aí que detesta o azulão (e na maioria, por razões bizarras). Sei que serei apedrejado, mas sabe como é, não dá pra agradar gregos e troianos e além do mais... não estou nem aí para os argumentos contra o personagem. Muita coisa boa se fez com ele, assim como muita coisa ruim também, concordo. Só que vou analisar o personagem ali, no âmago, na essência.
Dentes cirrados, sangue, testosterona e porrada.
Tem muita gente por aí que gosta de personagens violentos, tipo Wolverine, Venom e mais meia-dúzia de caras sem cérebro. E se você leu o texto do El Cid sobre o Ciclope contra Wolverine, sabe do que estou falando. E concordo em gênero, número e grau com ele. Personagens tridimensionais são muito mais legais do que um anabolizado com músculo até na orelha e com a profundidade de um pires. É o caso do Superman, um personagem muito humano. Ah, e antes que eu me esqueça, eu gosto do Wolverine. Mas só quando ele é bem escrito. Mas ainda assim eu prefiro o Ciclope. E odeio o Venom. :P
O Superman é diferente. E o fato de ele ser tão legal já começa por aí.
Bom, em primeiro lugar, o Super é um alienígena. Só que ele foi criado na Terra. Basicamente, segundo a origem de John Byrne , ele nasceu no nosso planetinha, pois a câmara da nave que o trouxe de Krypton era uma espécie de bolsa d'água artificial. E todos sabem que alguém só nasce quando a bolsa d'água de uma mulher rompe e o bebê, em seguida, sai do ventre da mãe imediatamente (com uma ajudinha de um médico e meia-dúzia de enfermeiras). Mas ainda assim, não muda o fato de que ele é diferente e ponto. Só pra se ter uma idéia de como isso pode ser aterrador ou estranho, pense da seguinte forma: você vai morar em outro país, sei lá... tipo o Uzbequistão ou Romênia. Ou até mesmo Sri Lanka. Você vai trabalhar e estudar em um lugar completamente desconhecido e com uma cultura completamente diferentes para você. Você é um estranho no ninho. Não tem amigos, não tem parentes, não tem ninguém que possa te ajudar se der algum pepino. E mesmo assim, um exemplo como esse não reflete em igual proporção o problema do Super, pois por mais bizarro e longe que seja o país para o qual você vai, você ainda está lidando com seres humanos. Pessoas intrinsecamente iguais a você. E o Super está sozinho num mundo que não é o dele. E ponto. E isso pode ser assustador.
Porém, ele teve a sorte de vir ainda na condição de "feto" para a Terra. Ele foi criado e cresceu aqui. Dessa forma, sempre surgiu um paradoxo extremo na cabeça de escritores e fãs sobre o que o Super é realmente. Ele é humano? É alienígena? O que ele realmente é? O personagem possui valores terrestres, criação terrestre, experiência de vida terrestre. E tem uma "armadura", uma "casca" alienígena. Muitos roteiristas e fãs acham que o "verdadeiro eu" do Super é o Kal-El, ou seja ele é um alienígena vivendo no meio de nós, pobres mortais, sempre sozinho por ser diferente. E não está errado. Porém, a visão paradoxalmente inversa é também válida. Ok, ele pode ser um alienígena, mas o coração e a alma dele são humanos. Sendo assim, para outros, Clark Kent é na verdade o "verdadeiro eu" do Super.
E o mais interessante é que o personagem pode ser trabalhado das duas formas. Porém, isso pode criar uma confusão enorme, uma crise de identidade não só para o personagem, mas para quem escreve. Um roteirista pode gostar mais de uma determinada visão. Aí, o cara sai do título e entra outro roteirista em seu lugar com a visão completamente invertida. Com outra idéia. Aí, danou-se. O que é o personagem então? Uma incógnita. Se trabalhado da forma correta, pode gerar histórias muuuuuito interessantes em sua busca por uma identidade. Eu prefiro pensar que o "verdadeiro eu" do Super é o Clark Kent. Lembrem-se: por mais diferente que ele seja, ele cresceu e foi criado como Clark, mesmo com todas as neuras que ele tinha sobre suas capacidades especiais. Ele mesmo só foi descobrir que era alienígena aos 18 anos de idade. Ele só abraçou a idéia de ser um super-herói quando teve que proteger seu "eu verdadeiro" (tá vendo?), pois já tinha revelado sua existência ao mundo. A identidade é o sossego do personagem. Ele quer privacidade? Veste-se como Clark, que é o que ele é. Quer isolamento total? Ora, bolas, ele pode voar para as montanhas do Himalaia a hora que quiser.
Acrescentando, a maioria dos nerds, na época do colégio, sofreu ao menos um pouco por ser diferente, por ser o esquisito. Por ser aquele cara que ninguém entende. Não tem como não se conectar a essa característica do azulão. Lembrem-se: ele é diferente porque é "o último filho de Krypton". Nós, nerds, ainda temos outros nerds por aí. Além do mais, o fato de ele ser o único de sua raça é a razão de me fazer detestar a Supermoça, o Superboy, o Supercão, o Supercavalo, o Superpikachu e por aí vai...
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| Venom: exemplo de personagem unidimensional. |
Ok, agora, explicando melhor o esquema de personagens babões e violentos contra personagens carismáticos e tridimensionais, vamos à personalidade do Super. Geralmente escuto coisas como: "Uau! o Wolverine é mau! Olha só como ele estraçalhou com fulano de tal..." ou "Venom pega um, pega geral! Ele atropela qualquer um em dois tempos!" - oh yeah, com certeza... será? Vejo por aí um sem número de fãs de personagens violentos, com suas armas exóticas, suas metrancas cuspidoras de chumbo, seus poderes direcionados para a carnificina e como eles fariam o personagem preferido de qualquer um comer grama. Violência é o que pega, não? Errado... ao menos, pra mim. Algumas bocas dizem: "Ah, o Super é babaca! Ele é bonzinho demais!" ou "Não existe alguém tão certinho!". Ok, pode parar. Então ser violento, ofender os outros, pagar uma de malandro e coisas do gênero é o mais legal então? Eu não acho. Pois vou dizer uma coisa: se todos fossem como o Super em seu caráter, o mundo seria muito melhor. E não, não é babaquice isso que eu acabei de escrever. O aclamado e reconhecido pintor Alex Ross (sim, o mesmo de O Reino do Amanhã e Marvels) já confessou que usa o modelo de moral e bom senso do Super e que isso fez da vida dele muito melhor. E que ainda por cima ele reconhece isso. Quando li isso numa entrevista dele, pensei: "Uau, não sou o único!".
O Super prefere conversar primeiro e depois, em último caso, partir para a briga. Pensando realisticamente, se você é uma pessoa que gosta de bater primeiro e perguntar depois (e logo em seguida, continuar batendo), vai arranjar muita confusão na sua vida. Se eu tenho um problema com alguém, prefiro esgotar todas as possibilidades de conversa. Todas mesmo. E sempre pensando também em me colocar no lugar da pessoa com a qual estou conversando. Aí você me pergunta: "Ah, então caso todas as possibilidades pacíficas se esgotem, você parte pra porrada?" - olha, depende da situação, depende da pessoa, depende muito de váááários fatores.
Partindo para outra vertente, o Super é gentil e educado. E sem ser baitola. Não é uma coisa maravilhosa quando você, independente de quem seja, encontra com alguém que é gentil, atencioso e bem-educado, sendo homem ou mulher? Ou você prefere pessoas mal-humoradas, que furam fila do banco sem mais nem menos, te empurram pra abrir passagem para algum lugar sem ao menos pedir desculpas (e às vezes, de propósito)? Desculpe, mas eu prefiro alguém que me dê um sorriso altamente bonito e confiável no dia-a-dia. É muito mais humano. Além do mais, o aspecto bondoso do Super pode gerar histórias altamente emocionantes, de tocar o coração do mais pedregoso dos sujeitos. É só saber como fazer.
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| Você prefere confiar em alguém assim... |
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| ... ou alguém assim? |
Os poderes. Ah, os poderes...
Alguns dizem que personagens superpoderosos não tem graça. São poderosos demais e tornam as histórias chatas. Concordo e discordo ao mesmo tempo. Ele é tão poderoso, mas tão poderoso que torna-se um verdadeiro desafio para qualquer roteirista escrever boas histórias com ele. E aí é que tá a graça. Se você é bom contando história, vai conseguir criar grandes desafios pra ele sem ser exagerado. O maior exemplo disso são as histórias no estilo "todos-esses-poderes-e-não-pude-fazer-nada-por-tal-pessoa-ou-com-tal-problema". O maior problema do azulão com seus poderes não reside exatamente em seus poderes e sim em seus vilões. Olha a galeria de vilões do Batman... ou a do Homem-Aranha. É muito mais legal do que os vilões mequetrefes que o kryptoniano costuma enfrentar.
Pensando assim, sou a favor de uma renovação da galeria de vilões do personagem. Manter só os legais, os que prestam mesmo: Lex Luthor, Darkside, Mongul, Brainiac, Metallo e Parasita . Reformula o Apocalypse (ainda tem salvação). Acaba de vez com o Bizarro, a Encantadora, o Dominus, Superciborgue, o Mxyzptlk e o Imperiex. E crie vilões que sejam diametralmente opostos às maiores características do Super. E que tenham contexto e façam sentido, por favor. Se eu tivesse a oportunidade de ser roteirista do personagem, iria alternar os vilões. Em um arco de histórias, seria um vilão clássico. E no arco de histórias seguinte, um vilão novo. E depois, no próximo, um outro vilão clássico. E seguindo a ordem, um outro vilão novo. E por aí vai. Eu iria reconstruir a galeria de vilões do cara. Mesmo. Se não tem ameaça, que graça tem o personagem? Os vilões, às vezes, são mais legais que os heróis e são eles que definem o herói.
E sim, gosto também de heróis sem poderes. Do mesmo jeito. Nada contra o Batman e outros do gênero, muito pelo contrário, adoro o personagem, ainda mais sendo "dcnauta de carteirinha".
Resumindo, o Super tem uma personalidade e caráter bem construídos, que funcionam também como defeitos, se bem explorado. E ele é diferente e ao mesmo tempo, iguais a nós. E ele é o cara que você pode nunca tê-lo visto na vida, mas a partir do momento que você olha nos olhos dele e ele diz um "Tudo bem, você está a salvo!" com um sorriso seguro, não tem como não confiar nele. Se duvida, é só ver os filmes dele. O Christopher Reeve captou essa característica de forma perfeita. O Homem-Aranha é humano, mas o Super não fica atrás, mesmo sendo praticamente um deus porque é algo que está dentro dele, vem de seu berço, da criação que teve com o Kents. E não, não coloquei essa última frase pra provocar o seu El Cid. Eu adoro o Aranha também.
E se depois de tudo isso, você achar que estou viajando veja esse post de uma comunidade do personagem no Orkut. Mais claro, impossível. Para o alto e avante.
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=56217&tid=11349613
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Comentários Atuais:
Pra começar, o título entrega que fez parte do especial do Superman - o Retorno na época da estréia do filme.
O que eu mudaria? Provavelmente hoje eu faria um texto mais humanitário, menos revoltado, digamos.
O que eu mudaria? Provavelmente hoje eu faria um texto mais humanitário, menos revoltado, digamos.
Os pontos principais continuam válidos e acho até que, passado todo esse tempo, a questão é ainda mais pertinente. Sinto que o mundo caminha para um estado cada vez mais individualista das coisas e isso é triste.
Procurar não ser a pessoa mais honesta, correta e íntegra possível porque "não existe ninguém assim" ou "os outros não são assim comigo" é se eximir da responsabilidade da busca de tornar-se um ser humano cada vez melhor. É uma muleta para o conformismo e desculpa esfarrapada na tentativa de não admitir os próprios defeitos de caráter. É difícil admitirmos nossos próprios defeitos? Sim, é. Porém, você pode enganar a todos, menos a si mesmo.
Quanto à parte criativa, eu calquei o texto na origem criada por John Byrne. Porém, da data de publicação original pra cá, a DC fez várias reinterpretações da origem do personagem, causando mais confusão ainda. Entretanto, é capaz que eu continuasse com a ideia da origem do Byrne devido a ela ser a mais impactante e coerente pra mim.
Sobre o link do Orkut, fiquei surpreso por ele ainda existir. Que bom.
Quanto à parte criativa, eu calquei o texto na origem criada por John Byrne. Porém, da data de publicação original pra cá, a DC fez várias reinterpretações da origem do personagem, causando mais confusão ainda. Entretanto, é capaz que eu continuasse com a ideia da origem do Byrne devido a ela ser a mais impactante e coerente pra mim.
Sobre o link do Orkut, fiquei surpreso por ele ainda existir. Que bom.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Crítica: ZATOICHI
Publicado originalmente no site A ARCA no dia 09/12/2004
Eu sempre tive queda por personagens cegos, então...
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Confesso que eu nem sabia o que esperar deste filme, já que nunca assisti nada que seu diretor, Takeshi Kitano havia feito antes. Porém, procurei saber quem era Kitano, li uma entrevista e vi um ou outro artigo. Tratado como como a "ovelha negra" do cinema japonês, talvez ele acabe merecendo ainda mais esse título depois deste filme. O tema Japão feudal sempre me interessou e fui com uma dose de curiosidade. No começo, o filme já me deixou com a pulga atrás da orelha: a cópia estava legendada em inglês.
Zatoichi conta a história do personagem do mesmo nome, interpretado também por Kitano (que, ainda por cima, é responsável pelo roteiro), um nômade cego que vive como massagista. Entretanto, Zatoichi esconde, debaixo de sua cegueira, uma habilidade sobrehumana com a espada (que usa disfarçada de bengala). Em suas andanças, acaba indo parar numa vila dominada por gangues, onde o líder Ginzo (Ittoku Kishibe), passa por cima de qualquer um que pense em se rebelar. A situação se torna ainda mais crítica depois que ele consegue contratar o hábil e mortal ronin (samurai sem mestre) chamado Hattori Genosuke (Tadanobu Asano, ótimo no papel). Em uma noite de jogatina, Zatoichi acaba cruzando seu caminho com duas gueixas que buscam vingança pelo assassinato de sua família e acaba também interferindo nos negócios da gangue. A partir daí, as coisas vão se complicando cada vez mais e sangue espirra para todos os lados.
Por falar em sangue, quando eu escrevi acima que talvez Kitano seja tachado ainda mais de ovelha negra do cinema japonês, não seria pelos mesmos motivos que antes (valorização de outros costumes, crítica à ocidentalização total do Japão e outras coisas), mas pelo fato de um cineasta renomado como ele, influenciado pelas "escolas antigas" (como Akira Kurosawa, por exemplo), que usam técnicas mais tradicionais de filmagem, usar CG nas cenas de luta. Não, você não verá lutas ao estilo Matrix, Homem-Aranha e outros blockbusters americanos. O CG é usado apenas como auxílio das cenas, para causar um ou outro impacto desejado e não sobre a cena inteira. Aliás, as lutas são feitas à moda antiga, com fios, coreografia e tudo mais; sendo o CG um simples temperinho. Porém, ás vezes se torna perceptível demais, mas não a ponto de comprometer uma cena ou mesmo o filme inteiro.
Já sobre o clima do filme, eu penso nele como duas metades. Na primeira metade, você vai sendo apresentado aos personagens aos poucos, tentando imaginar como seus caminhos se cruzariam, o que um significaria para o outro e isso demora a acontecer de modo que você chega a pensar que pode não estar entendendo muita coisa ou que o filme não faça muito sentido. Porém, a partir da metade final, a coisa toda muda de figura. As coisas vão se encaixando com uma precisão incrível e o filme vai ficando cada vez mais delicioso de assistir. Além disso, os personagens do filme são extremamente simpáticos, principalmente Shinkichi (Gadarukanaru Taka, outro que dá um show de interpretação), um vagabundo viciado em jogo que acaba ajudando Zatoichi. É ele que protagoniza as cenas cômicas do filme, que são bem dosadas e muito engraçadas (principalmente a cena do "treino" de kenjutsu, muito hilária!). E cenas engraçadas não são nenhuma surpresa, já que Kitano começou sua carreira cênica como humorista. Ah, além disso, a cena de dança no final é simplesmente de cair o queixo, muito bem coreografada e belíssima de assistir.
Só um detalhe da história que eu me senti meio incomodado, talvez pelo fato de eu achar que, se fosse melhor desenvolvido, poderia resultar numa história ainda mais dramática: o tal ronin Hatttori é casado e não está conseguindo sustentar sua esposa, estando ambos à beira da falência total. Você até sente o desespero e o sofrimento dela, mas não o suficiente para se importar como deveria, pois as cenas com ela são muito poucas. Quando Hattori consegue o "emprego" na gangue de Ginzo, dá a impressão que as coisas podem melhorar quando na verdade só estão piorando, pois ela não quer ver o marido envolvido com a lei ou pior, morto. Porém, como eu citei, poderia ser melhor desenvolvido.
No final das contas, Zatoichi possui duas facetas. A primeira, que é apenas diversão pura e simples (as coreografias de luta são geniais e muito realistas, apesar do CG e; os personagens simpáticos e envolventes) e a outra é até uma leve (na verdade, quase imperceptível) crítica aos costumes ocidentalizados no Japão. O povo da vila seria o povo japonês e a gangue, os costumes ocidentais impondo sua força, sua vontade, coisa que Kitano até é favorável, mas só até certo ponto como já declarou antes pois, para ele, se algo é ruim, tem que ser mudado mesmo, mas se há coisas boas, para quê mudá-las? Desse modo, Kitano acha que o Japão acaba mesmo perdendo sua identidade cada vez mais. Se você gosta desta polêmica, há filmes que tratam isso melhor, agora se você gosta de puro entretenimento, apenas assista e se divirta.
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Comentários Atuais:
Minha opinião sobre o filme continua a mesma. Assisti a ele novamente umas semanas atrás e o resultado final me pareceu ainda mais atraente e simpático.
Depois de Zatoichi, procurei assistir a outras obras de Kitano e ele se tornou um dos meus cineastas orientais preferidos. Ainda assim, eu o vejo como alguém cujos trabalhos variam muito em desenvolvimento, de maneira que alguns deles realmente não são para o grande público por ter características que falem mais ao povo oriental ou para quem manja de cultura oriental, que absorverá melhor os detalhes, sutilezas e nuances.
Então, o que provavelmente eu mudaria nesse texto, depois de quase seis anos de sua publicação original é alguma coisa na sintaxe de uma ou outra frase e também usaria menos parêntesis.
Eu sempre tive queda por personagens cegos, então...
Por Emílio "Elfo" Baraçal
Confesso que eu nem sabia o que esperar deste filme, já que nunca assisti nada que seu diretor, Takeshi Kitano havia feito antes. Porém, procurei saber quem era Kitano, li uma entrevista e vi um ou outro artigo. Tratado como como a "ovelha negra" do cinema japonês, talvez ele acabe merecendo ainda mais esse título depois deste filme. O tema Japão feudal sempre me interessou e fui com uma dose de curiosidade. No começo, o filme já me deixou com a pulga atrás da orelha: a cópia estava legendada em inglês.
Zatoichi conta a história do personagem do mesmo nome, interpretado também por Kitano (que, ainda por cima, é responsável pelo roteiro), um nômade cego que vive como massagista. Entretanto, Zatoichi esconde, debaixo de sua cegueira, uma habilidade sobrehumana com a espada (que usa disfarçada de bengala). Em suas andanças, acaba indo parar numa vila dominada por gangues, onde o líder Ginzo (Ittoku Kishibe), passa por cima de qualquer um que pense em se rebelar. A situação se torna ainda mais crítica depois que ele consegue contratar o hábil e mortal ronin (samurai sem mestre) chamado Hattori Genosuke (Tadanobu Asano, ótimo no papel). Em uma noite de jogatina, Zatoichi acaba cruzando seu caminho com duas gueixas que buscam vingança pelo assassinato de sua família e acaba também interferindo nos negócios da gangue. A partir daí, as coisas vão se complicando cada vez mais e sangue espirra para todos os lados.
Por falar em sangue, quando eu escrevi acima que talvez Kitano seja tachado ainda mais de ovelha negra do cinema japonês, não seria pelos mesmos motivos que antes (valorização de outros costumes, crítica à ocidentalização total do Japão e outras coisas), mas pelo fato de um cineasta renomado como ele, influenciado pelas "escolas antigas" (como Akira Kurosawa, por exemplo), que usam técnicas mais tradicionais de filmagem, usar CG nas cenas de luta. Não, você não verá lutas ao estilo Matrix, Homem-Aranha e outros blockbusters americanos. O CG é usado apenas como auxílio das cenas, para causar um ou outro impacto desejado e não sobre a cena inteira. Aliás, as lutas são feitas à moda antiga, com fios, coreografia e tudo mais; sendo o CG um simples temperinho. Porém, ás vezes se torna perceptível demais, mas não a ponto de comprometer uma cena ou mesmo o filme inteiro.
Já sobre o clima do filme, eu penso nele como duas metades. Na primeira metade, você vai sendo apresentado aos personagens aos poucos, tentando imaginar como seus caminhos se cruzariam, o que um significaria para o outro e isso demora a acontecer de modo que você chega a pensar que pode não estar entendendo muita coisa ou que o filme não faça muito sentido. Porém, a partir da metade final, a coisa toda muda de figura. As coisas vão se encaixando com uma precisão incrível e o filme vai ficando cada vez mais delicioso de assistir. Além disso, os personagens do filme são extremamente simpáticos, principalmente Shinkichi (Gadarukanaru Taka, outro que dá um show de interpretação), um vagabundo viciado em jogo que acaba ajudando Zatoichi. É ele que protagoniza as cenas cômicas do filme, que são bem dosadas e muito engraçadas (principalmente a cena do "treino" de kenjutsu, muito hilária!). E cenas engraçadas não são nenhuma surpresa, já que Kitano começou sua carreira cênica como humorista. Ah, além disso, a cena de dança no final é simplesmente de cair o queixo, muito bem coreografada e belíssima de assistir.
Só um detalhe da história que eu me senti meio incomodado, talvez pelo fato de eu achar que, se fosse melhor desenvolvido, poderia resultar numa história ainda mais dramática: o tal ronin Hatttori é casado e não está conseguindo sustentar sua esposa, estando ambos à beira da falência total. Você até sente o desespero e o sofrimento dela, mas não o suficiente para se importar como deveria, pois as cenas com ela são muito poucas. Quando Hattori consegue o "emprego" na gangue de Ginzo, dá a impressão que as coisas podem melhorar quando na verdade só estão piorando, pois ela não quer ver o marido envolvido com a lei ou pior, morto. Porém, como eu citei, poderia ser melhor desenvolvido.
No final das contas, Zatoichi possui duas facetas. A primeira, que é apenas diversão pura e simples (as coreografias de luta são geniais e muito realistas, apesar do CG e; os personagens simpáticos e envolventes) e a outra é até uma leve (na verdade, quase imperceptível) crítica aos costumes ocidentalizados no Japão. O povo da vila seria o povo japonês e a gangue, os costumes ocidentais impondo sua força, sua vontade, coisa que Kitano até é favorável, mas só até certo ponto como já declarou antes pois, para ele, se algo é ruim, tem que ser mudado mesmo, mas se há coisas boas, para quê mudá-las? Desse modo, Kitano acha que o Japão acaba mesmo perdendo sua identidade cada vez mais. Se você gosta desta polêmica, há filmes que tratam isso melhor, agora se você gosta de puro entretenimento, apenas assista e se divirta.
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Comentários Atuais:
Minha opinião sobre o filme continua a mesma. Assisti a ele novamente umas semanas atrás e o resultado final me pareceu ainda mais atraente e simpático.
Depois de Zatoichi, procurei assistir a outras obras de Kitano e ele se tornou um dos meus cineastas orientais preferidos. Ainda assim, eu o vejo como alguém cujos trabalhos variam muito em desenvolvimento, de maneira que alguns deles realmente não são para o grande público por ter características que falem mais ao povo oriental ou para quem manja de cultura oriental, que absorverá melhor os detalhes, sutilezas e nuances.
Então, o que provavelmente eu mudaria nesse texto, depois de quase seis anos de sua publicação original é alguma coisa na sintaxe de uma ou outra frase e também usaria menos parêntesis.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Meu Filme É... O ÚLTIMO SAMURAI
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| Nathan Algren tentando achar seu caminho. |
Publicado originalmente no site A ARCA no dia 24/08/2005
Redenção. Simplesmente isso.
Por Emílio "Elfo" Baraçal
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Meu, a tarefa de falar de um filme que tenha me emocionado bastante é difícil. Na lista de filmes-que-me-fizeram-chorar, pode colocar aí Patch Adams - O Amor é Contagioso, Tarzan (sim, o da Disney), Alta Frequência (por incrível que pareça, sim, afinal, é um ótimo filme para homens, ainda mais se você tem problemas graves de relacionamento com seu pai), Homem-Aranha (mas até aí, pelo coração nerd, então conta?), O Clube dos Cinco, entre outros. Mas lembrei de um filme que não chegou a me fazer chorar, mas me fez entender muita coisa que talvez (ou não) eu já soubesse, mas minha cabeça e meu coração não sabiam como colocar em ordem. Eu falo de O Último Samurai. Resolvi então escrever sobre este longa de Tom Cruise, que me marcou bastante.
Nathan Algren (Cruise) é um soldado veterano de guerra americano que combatia os apaches. Porém, devido a essa guerra, ele acabou perdendo o rumo de sua vida, passando a levar cada dia quase que totalmente alcoolizado. Porém, por sua experiência, é contratado por americanos que estão reunindo mercenários que vão treinar o exército imperial japonês. O Imperador Meiji é um homem que tem a idéia fixa de colocar seu país no mundo moderno, e que enfrenta uma rebelião de samurais.
Algren entra na história com uma dose de cinismo absurda. Os samurais lhe são descritos como selvagens e abomináveis, e ele logo percebe que os conselheiros americanos do imperador fizeram um péssimo serviço no trabalho de treinamento de tropas. Com um exército em más condições, ele parte para enfrentar os samurais, liderados por Katsumoto (Ken Watanabe, que concorreu ao Oscar de Ator Coadjuvante por este papel).
Durante o combate, Algren é feito prisioneiro. Katsumoto o quer vivo para poder conhecer o inimigo. Isola-o em uma pequena vila rural e tenta extrair dele seus conhecimentos. O soldado, a princípio, se mostra esquivo e relutante, mas depois de um chuvoso inverno, ele e o líder samurai começam a ter diálogos filosóficos sobre a ética da guerra e dos guerreiros. E é a partir daí que Algren tentará, a todo custo, arranjar novos valores, ética e moral para sua vida, melhorando como ser humano.
Sim, "O Último Samurai" me marcou muito. Em primeiro lugar, por causa do personagem de Cruise. Nathan Algren é um homem amargurado devido aos erros de seu passado, que não vê esperanças de que a coisa toda mude, indo cada vez mais para o fundo do poço. Eu cometi, como qualquer pessoa, vários erros durante a minha vida. E ainda hoje, apesar dos anos, eles ainda estão aí para me lembrar de que tenho que a cada dia ser uma pessoa melhor. Os meus maiores erros ainda ecoam na minha vida e tenho batalhado de forma incansável para não só extirpá-los, mas para também não os cometê-los de novo, assim como para não cometer erros novos de igual magnitude. Eu machuquei pessoas fisica e emocionalmente. Fiz coisas que atrapalharam a vida de outras e errei feio com as pessoas que mais amo. Dessa forma, me identifiquei muito com Algren.
Em segundo lugar, a maioria dos blockbusters faz apologia ao "the american way of life" - ou seja, "o estilo de vida americano" - sendo carregados de patriotismo e mensagens subliminares, além de terem a mania de fazer outros povos e culturas se sentirem inferiorizados. Apesar do herói principal ser americano, não é o que acontece em "O Último Samurai". O grande vilão é o governo americano, que tenta cada vez mais firmar acordos e mais acordos com o governo japonês, com um só objetivo: o lucro. A convenção de que a cultura americana é sempre superior à cultura com a qual se mistura é inteiramente quebrada no filme. O último samurai não é Algren, que acaba adotando o estilo de vida japonês e sim Katsumoto, em que sua última ação no filme vai servir de exemplo para o imperador fazer aquilo que é certo. Os americanos se ferram no final e ponto. Por fora, Algren é americano, mas por dentro ele não só é japonês, como também se tornou um samurai. E a maior prova disso acontece em uma determinada sequência. Logo que Algren é capturado, Katsumoto recolhe suas coisas, entre livros, anotações, e outras traquitanas. Porém, em determinado momento, Katsumoto devolve os pertences a Algren e diz: "Quando peguei isto, você era meu inimigo". E sai andando. Resumindo, os dois se tornaram amigos e irmãos. E levando em consideração que é um samurai e ainda por cima, naquela época, Algren tinha conseguido um feito que apenas poucos conseguem: um japonês confiar em um gaijin - a palavra japonesa para "estrangeiro".
Dessa forma, é mostrado como nunca podemos perder a esperança de conseguirmos aquilo que queremos, por mais que pareça impossível. E o filme mostrou isso sem ser piegas ou clichê demais. O filme mostra, como podemos mudar, nos tornando melhores pessoas a cada dia.
Além disso, a película mostra de forma bela e simples como uma outra cultura que, para nós, pode ser aparentemente estranha, pode ter significados verdadeiramente belos. Eu, pelo fato de ter praticado artes marciais durante anos, fiquei deliciosamente atraído por certos aspectos que provavelmente, nem todas as pessoas puderam enxergar. A princípio, os japoneses parecem frios e distantes mas por trás disso tudo, esconde-se um emaranhado de emoções, intenções e significados.
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| Vida e morte de Katsumoto dão novo significado de vida a Algren. |
Outro exemplo é uma cena que meu pai não entendeu, na qual Katsumoto e Algren vão conversar pela primeira vez. Algren questiona a presença dele para conversar com seu inimigo. Katsumoto diz: "Quero conhecer meu inimigo". Algren não entende muito bem o modo de pensar de Katsumoto, que tenta através de um rápido diálogo, conhecer seu captor. Mas Katsumoto responde a parte de "conhecer o inimigo" assim: "Nossos costumes parecem estranhos para vocês, assim como os de vocês para nós. Por exemplo, não se apresentar é extremamente rude, mesmo entre inimigos". Para o meu pai, como um bom ocidental, se é inimigo, não tem conversa, desce a porrada. O cara tá te prendendo? Mata ele e foge. Simples. Porém, como um samurai não deve temer nada (e como já expliquei, nem a morte), não há porque se esconder de seus inimigos. Inicialmente, meu pai achou aquilo muito estranho e custava entrar na cabeça dele o significado daquilo. Eu só disse uma palavra a ele: "pense". Depois de um tempo, ele entendeu.
Somos inimigos? Por quê? Por que seus objetivos vão contra os meus? Há um meio de contornar isso? Será que se um se colocar no lugar do outro, há como chegar a um entendimento? Se não houver, tudo será resolvido em combate. Se é pra ser resolvido dessa forma, por que não simplesmente matá-lo aqui e agora para me poupar de problemas? Fica tudo mais fácil pra mim. Dane-se você. Errado. Todos têm o direito de defesa e de perseguir seus sonhos e objetivos. É covarde e injusto pegar uma espada e decapitar um homem desarmado. É uma pessoa destruindo não só a vida de alguém, mas tudo aquilo que ele poderá fazer de bom até o fim de sua vida. Além do mais, se é homem de família, há inocentes que dependem de seu inimigo. A única forma de resolverem isto é no combate justo. Condições iguais nas quais você poderá defender seu ponto de vista e seu inimigo, o dele. Aí está um exemplo de compaixão japonesa. Um samurai nunca vai lidar com alguém com ideias traidoras ou vai fingir ser seu amigo a vida inteira, pra quando chegar um certo momento, mostrar quem ele realmente é. Um samurai é o que ele mostra e ponto. A cena do "Quero conhecer meu inimigo" é uma dentre muitas que estão lá para serem refletidas, pensadas, interpretadas. E no filme, pra quem conhece cultura japonesa, dá pra notar isso aos montes. Mesmo assim, o modo de vida, a filosofia e os costumes japoneses são explicados de forma sutil, sem precisar cair no óbvio. E claro, graças a Deus, meu pai entendeu. :P
Devido ao amor pela cultura japonesa, ao carinho pelas artes marciais, ao apreço pela filosofia oriental e, principalmente, pelo personagem em busca de redenção é que esse filme me faz ter uma estima enorme por ele e reforça minha persistência em me tornar a cada dia alguém mais digno, honesto, simples, sincero e determinado, onde luto pelo que tenho direito, faço aquilo que tenho por dever e ajudo aqueles que são mais necessitados. Resumindo, o longa é uma aula de humanidade.
Já se formos falar da parte técnica, até nisso o filme é quase impecável.
A música é soberbamente orquestrada e composta por Hans Zimmer, que consegue captar de forma sutil e competente toda a atmosfera da época. E olha que, pra mim, a trilha sonora é um aspecto importantíssimo de um filme, praticamente sendo essencial para criar o clima de uma produção. A direção de Edward Zwick é segura, conseguindo extrair de cada cena e de cada um no elenco, o espírito certo para esse tipo de filme. O figurino é perfeito, não há o que reclamar. E o legal é que apesar de ser um filme blockbuster, "O Último Samurai" não cai no erro de ser uma produção que tem apenas cenas de ação ou algo do gênero para entreter o público. Os personagens são tridimensionais, você cria carinho por eles. O aspecto psicológico de cada um é muito bem trabalhado, além de conseguir retratar uma difícil época de mudanças na sociedade e costumes japoneses. Dessa forma, o drama, o romance e as complicações são o foco principal, onde a ação é só mais uma ferramenta para que o longa seja apresentado de forma soberba.
"O Último Samurai", um filme belíssimo que me pegou lá no fundo do meu coração por tudo isso e mais um pouco. E esse mais um pouco é sempre difícil de explicar quando algo do gênero acerta em cheio seus sentimentos. Meu pecados e demônios interiores ainda estão vivos dentro de mim. Mas não vou cansar enquanto não derrotá-los e enquanto não encontrar um meio de lidar com o perdão de meus erros e finalmente conseguir minha redenção. É isso que tenho feito da minha vida em grande parte do tempo. E você? O que tem feito da sua?
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Comentários Atuais:
"Meu filme é..." foi uma proposta bem bacana d´A ARCA em reunir o hobby com o pessoal. Na época, eu queria falar de O Clube dos Cinco ou Um Sonho de Liberdade. Lá em cima, tem a lista dos filmes de cada um que já havia sido publicados no site, cada um entrando em uma semana. O do Thiago "El Cid" Cardim já era Um Sonho de Liberdade. Então o natural seria fazer sobre o O Clube dos Cinco. Porém, o Bruno "Benício" Fernandes havia dito que faria sobre esse filme - que não está na lista porque entraria na semana seguinte, depois desse meu artigo. Então, sobre o que escreveria agora?
Se pegar a minha lista de 10 filmes preferidos aí na barra da esquerda do blog, a lógica seria falar sobre um deles. Mas naquele momento, para o feeling que a ideia pedia, eu não me sentia necessariamente conectado a nenhum deles e eu vivia um momento conturbado devido a algumas coisas que aconteciam comigo. Resolvi então que usaria um filme mais recente para falar sobre como havia me atingido. E seria legal porque como filme recente, com certeza ainda estaria na memória das pessoas, facilitando a ligação entre redator e leitor.
Agora, se eu mudaria algo no texto? Passados esses anos, tenho orgulho de dizer que não. Relendo-o, ainda o vejo redondinho, perfeito. Além da conotação mais pessoal, esse é mais um dos motivos por escolhido essa matéria para a inauguração do portfólio.
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